A longevidade traz consigo o desafio de gerenciar tratamentos contínuos que, muitas vezes, perdem a eficácia ou tornam-se prejudiciais com o avançar da idade. O fenômeno, frequentemente comparado por especialistas a “cracas” que se fixam em um casco, reflete a dificuldade do sistema de saúde em interromper terapias que se tornaram hábitos enraizados, mesmo quando novas evidências científicas apontam riscos superiores aos benefícios.
O processo de revisão de condutas médicas é lento. Pesquisadores identificam falhas em fármacos amplamente utilizados, associações médicas atualizam diretrizes — como a inclusão nos Critérios de Beers, da Sociedade Americana de Geriatria — e agências reguladoras como a FDA emitem alertas. Contudo, a transição da teoria para a prática clínica enfrenta a inércia, onde profissionais e pacientes mantêm prescrições por segurança ou costume, ignorando a necessidade de reavaliação constante.
O impacto dos benzodiazepínicos na saúde cognitiva
Os benzodiazepínicos, classe que inclui diazepam, alprazolam e lorazepam, além dos medicamentos “Z” como o zolpidem, ilustram bem essa resistência à mudança. Embora ofereçam alívio rápido para insônia e ansiedade, o uso prolongado em idosos é associado a prejuízos graves na cognição, equilíbrio e coordenação motora.
Dados recentes publicados no periódico Annals of Internal Medicine revelam um cenário misto. Se entre 2015 e 2024 o uso geral caiu de 14% para 11,5% entre maiores de 65 anos, o consumo voltou a crescer em faixas etárias mais avançadas. Entre pessoas com mais de 75 anos, a taxa subiu de 12% em 2020 para cerca de 13% quatro anos depois, com um aumento expressivo em instituições de longa permanência. Especialistas alertam que a interrupção abrupta é perigosa e deve ser sempre mediada por um profissional de saúde, devido aos riscos de abstinência.
Antibióticos e a mudança de paradigma na diverticulite
Outro exemplo clássico de mudança de conduta é o tratamento da diverticulite não complicada. Por décadas, a prescrição de antibióticos como fluoroquinolonas foi considerada padrão ouro. A mentalidade era de que, na dúvida, o fármaco seria uma medida preventiva segura. No entanto, estudos clínicos demonstraram que, para a maioria dos casos, o uso desses medicamentos não alterava o curso da doença, não reduzia a mortalidade e nem evitava cirurgias.
A mudança de recomendação, iniciada pela Associação Americana de Gastroenterologia em 2015, busca mitigar os efeitos colaterais desnecessários, como náuseas e infecções graves por C. difficile, além de combater a resistência antimicrobiana. A transição para uma medicina mais conservadora exige que médicos e pacientes aceitem que, em muitos cenários, o tratamento menos invasivo é, de fato, o mais eficaz.
A desprescrição, portanto, não é apenas um ato de retirar um remédio, mas um processo complexo de reeducação sobre o que constitui um cuidado de qualidade. O Diário Global segue acompanhando as atualizações nas diretrizes de saúde pública e o impacto dessas mudanças no cotidiano dos pacientes, mantendo nosso compromisso com uma informação que prioriza a segurança e a evidência científica.

