Um novo capítulo na diplomacia venezuelana
Em um movimento que marca uma mudança significativa na política externa de Caracas, a Venezuela e Israel anunciaram o restabelecimento dos serviços consulares e o início de uma cooperação técnica bilateral. O acordo, divulgado nesta terça-feira (11), encerra um hiato diplomático de 17 anos, iniciado em 2009, quando o então presidente Hugo Chávez expulsou o embaixador israelense em resposta a uma ofensiva militar na Faixa de Gaza.
A reaproximação ocorre sob a gestão do governo interino de Delcy Rodríguez, que assumiu o poder após a captura de Nicolás Maduro em janeiro deste ano, em uma operação conduzida pelos Estados Unidos. O anúncio foi formalizado pelo ministro das Relações Exteriores, Félix Plasencia, por meio de uma publicação na rede social X, destacando que o mecanismo de coordenação visa atender demandas práticas entre as duas nações.
Cooperação técnica pós-desastre
A base para essa retomada do diálogo foi pavimentada por uma tragédia natural. Em junho, a Venezuela foi atingida por terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5, que resultaram em mais de 6.300 mortes e danos estruturais severos no norte do país. Em resposta, o governo israelense enviou equipes de resgate e ajuda humanitária, estabelecendo um canal de comunicação que agora se formaliza na esfera consular.
O ministro Félix Plasencia recebeu no último domingo (9) o rabino-chefe da Associação Israelita da Venezuela, Isaac Cohen. Durante o encontro, a liderança religiosa enfatizou a necessidade urgente de normalizar os serviços para garantir o suporte aos cerca de 6.000 judeus que residem atualmente em território venezuelano, conforme dados do Congresso Judaico Mundial.
Tensões internas e o legado do chavismo
A decisão de retomar laços com Tel Aviv não é consensual dentro do cenário político venezuelano. Durante as eras de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, o país consolidou uma postura de forte rejeição a Israel, aliando-se estrategicamente ao Irã em um contexto de sanções econômicas impostas por Washington. A retórica oficial da época, marcada por declarações inflamadas, definiu a política externa venezuelana por mais de uma década.
Atualmente, o governo de Delcy Rodríguez enfrenta resistência de alas radicais do chavismo. Em 24 de julho, manifestantes protestaram contra a nova orientação diplomática, queimando bandeiras dos Estados Unidos e de Israel. Esse descontentamento reflete o desafio de equilibrar as pressões externas de Washington com a base de apoio interna que ainda mantém forte oposição aos aliados tradicionais dos americanos.
O futuro das relações internacionais
O restabelecimento dos serviços consulares representa um passo pragmático, mas ainda limitado, na normalização das relações. Enquanto a cooperação técnica foca na recuperação pós-terremoto e no atendimento à comunidade judaica, o cenário geopolítico regional permanece volátil. A transição política no país e a influência direta de potências globais continuam a moldar os próximos passos da diplomacia venezuelana.
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