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Preconceito na saúde: como a discriminação afeta o tratamento de câncer em pessoas Lgbtqiapn+

Saúde

A população LGBTQIAPN+ no Brasil e no mundo enfrenta uma série de desafios que vão além das questões sociais e culturais, estendendo-se a áreas cruciais como o acesso à saúde. A discriminação, manifestada de diversas formas, cria barreiras significativas que podem impactar diretamente a jornada de cuidado de indivíduos com doenças graves, como o câncer. Essa realidade complexa não apenas dificulta a busca por atendimento, mas também pode atrasar diagnósticos e comprometer a eficácia dos tratamentos, gerando consequências severas para a saúde e o bem-estar desses pacientes.

A experiência de adoecimento e a necessidade de cuidados médicos para pessoas LGBTQIAPN+ são frequentemente marcadas por episódios de preconceito e falta de preparo profissional. Tal cenário agrava a vulnerabilidade de um grupo que já lida com estigmas e violências cotidianas, transformando o ambiente de saúde, que deveria ser acolhedor e seguro, em mais um espaço de tensão e exclusão. A compreensão dessas dinâmicas é fundamental para construir um sistema de saúde mais equitativo e humano.

O impacto da discriminação no diagnóstico

Uma revisão de literatura publicada em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia lançou luz sobre as dificuldades enfrentadas por indivíduos LGBTQIAPN+ no acesso e na qualidade dos serviços de assistência oncológica. O estudo, que analisou diversas pesquisas sobre o tema, apontou que as principais fragilidades estão diretamente ligadas à formação dos profissionais de saúde. Segundo o enfermeiro Cremilson de Paula Silva, mestrando na Universidade Federal de Alfenas (Unifal) e primeiro autor da pesquisa, os cursos de graduação e pós-graduação muitas vezes abordam a saúde LGBTQIAPN+ de maneira superficial.

Essa deficiência na formação se traduz em uma escassez de atividades práticas e experiências clínicas supervisionadas. Consequentemente, os estudantes não desenvolvem as competências necessárias para oferecer um cuidado inclusivo, ético e culturalmente sensível. A falta de preparo profissional contribui para um distanciamento entre a comunidade LGBTQIAPN+ e os médicos, um fator particularmente preocupante quando se trata de neoplasias.

Atrasos no diagnóstico e suas consequências

A conexão entre a discriminação, o afastamento dos serviços de saúde e o diagnóstico tardio de câncer é direta e amplamente documentada. A oncologista clínica Ana Paula Garcia Cardoso, do Einstein Hospital Israelita, enfatiza que o medo do preconceito leva muitos a evitar consultas e exames preventivos, aumentando significativamente a chance de descobrir a doença já em estágio avançado. Este atraso pode ser fatal, pois a detecção precoce é um dos pilares para o sucesso do tratamento oncológico.

Um estudo publicado em 2023 na renomada revista JAMA Oncology, realizado em um centro médico dos Estados Unidos, trouxe dados alarmantes. Mulheres lésbicas ou bissexuais e homens transgênero levaram, em média, 64 dias para receber o diagnóstico de câncer de mama após o início dos sintomas, enquanto pacientes cisheteronormativos tiveram uma média de 34 dias. A pesquisa também revelou que minorias sexuais e de gênero tendem a recusar com maior frequência os tratamentos recomendados e apresentam uma taxa de recorrência da doença três vezes maior.

Lacunas na prevenção e cuidados específicos

A realidade brasileira não é diferente. Uma pesquisa publicada na revista Clinics em 2023, envolvendo cerca de 6.700 participantes com mais de 50 anos, demonstrou que pessoas LGBTQIAPN+ realizam menos exames preventivos essenciais para a detecção precoce de câncer. Entre mulheres heterossexuais, 74% relataram ter feito mamografia, contra apenas 40% entre as lésbicas. O rastreamento de câncer de colo do útero e colorretal também foi significativamente inferior nesse grupo.

O geriatra Milton Crenitte, professor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e autor da pesquisa brasileira, aponta que a LGBTQIAPN+fobia, o estresse de minoria e as dificuldades de acesso aos serviços de saúde expõem essas pessoas a fatores de risco associados a diferentes tipos de câncer, como tabagismo, consumo de álcool e sedentarismo. Além disso, a interseccionalidade de fatores como raça, renda, local de moradia e presença de comorbidades potencializa as desigualdades no atendimento.

É crucial reconhecer as particularidades clínicas que exigem abordagens individualizadas. Homens trans que mantêm o colo do útero, por exemplo, continuam precisando de rastreamento para papilomavírus humano (HPV) e câncer cervical. Mulheres trans que desenvolveram tecido mamário por terapia hormonal necessitam de mamografia. Mesmo após cirurgias de redesignação sexual, mulheres trans ainda podem ter risco de câncer de próstata, exigindo o exame de toque retal. O atendimento, portanto, deve considerar o histórico completo e a identidade de gênero do paciente, não apenas o sexo atribuído ao nascimento.

Desafios psicossociais e a necessidade de acolhimento

Muitos pacientes LGBTQIAPN+ chegam ao consultório médico com um sofrimento acumulado, enfrentando um sistema que nem sempre está preparado para acolhê-los adequadamente. O desafio clínico vai além do tratamento do tumor; envolve a criação de um ambiente seguro e digno, onde essas pessoas se sintam à vontade para serem quem são e receberem o cuidado que merecem.

A ausência de uma rede de apoio é outro fator crítico. Muitos pacientes LGBTQIAPN+ podem ter vínculos familiares fragilizados ou rompidos devido à rejeição, o que potencializa o sofrimento ao receber um diagnóstico de câncer. A população LGBTQIAPN+ já apresenta taxas mais altas de depressão, ansiedade e ideação suicida em comparação com a população geral. Um diagnóstico de câncer pode agravar esses quadros, impactando diretamente a adesão ao tratamento, a resposta terapêutica e a qualidade de vida durante o processo oncológico.

Embora as cirurgias, quimioterapia e imunoterapia sigam princípios gerais para todos os pacientes, aspectos como saúde hormonal, efeitos adversos, sexualidade e acompanhamento longitudinal precisam ser individualizados e discutidos de forma respeitosa e acolhedora. A luta contra o câncer já é árdua, e a discriminação não deve ser um obstáculo adicional. É imperativo que os sistemas de saúde e os profissionais se capacitem para oferecer um cuidado verdadeiramente inclusivo, garantindo que todos os pacientes, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero, recebam o tratamento digno e eficaz que merecem.

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