20.mai.25/Reuters

Domo Dourado de Trump: proposta antimísseis pode custar US$1,2 trilhão com falhas

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A ambiciosa visão do presidente Donald Trump para uma defesa antimísseis abrangente, batizada de “Domo Dourado”, enfrenta um escrutínio rigoroso. Um relatório governamental recente, divulgado nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, projeta um custo astronômico de US$ 1,2 trilhão ao longo de duas décadas. A cifra, muito superior à estimativa inicial de Trump, levanta sérias questões sobre a viabilidade e a eficácia de um sistema que, mesmo após investimentos massivos, não garantiria proteção total contra adversários como a Rússia e a China.

A proposta, que busca emular a eficácia do Domo de Ferro de Israel em uma escala continental, visa proteger os Estados Unidos, Alasca e Havaí. Contudo, a análise do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), um órgão não partidário, aponta para uma complexidade e um custo sem precedentes, desafiando a narrativa de uma solução simples para a segurança nacional.

Domo Dourado: a complexidade de uma defesa em múltiplas camadas

O conceito do Domo Dourado, conforme detalhado pelo relatório do CBO, exige uma infraestrutura defensiva de quatro camadas distintas. Isso inclui uma vasta constelação de milhares de satélites, complementada por uma dezena de radares e instalações de mísseis terrestres, projetados para interceptar mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs). Além disso, seriam necessárias 35 novas instalações regionais para combater ameaças mais recentes, como mísseis hipersônicos e de cruzeiro.

A base para essa estimativa do CBO foi um decreto emitido pelo presidente Trump em janeiro de 2025. Na ocasião, ele havia sugerido que o projeto custaria cerca de US$ 175 bilhões, uma fração do valor agora projetado. A discrepância destaca a enorme diferença entre a retórica política e a realidade técnica e financeira de um empreendimento dessa magnitude.

Interceptores espaciais: o maior desafio e custo

Um dos pilares do Domo Dourado seriam os “interceptores espaciais” – satélites armados com mísseis orbitando o planeta. Segundo o CBO, esses componentes representariam aproximadamente 60% do custo total do projeto. Para neutralizar até dez ICBMs inimigos simultaneamente no espaço, seria necessária uma constelação de cerca de 7.800 satélites armados.

A eficácia desses interceptores dependeria de sua posição em órbita baixa, onde, paradoxalmente, estariam sujeitos ao arrasto da atmosfera terrestre. Esse fenômeno causaria uma perda de altitude significativa ao longo de cinco anos, levando à desintegração dos satélites e à necessidade de substituição constante. Tal ciclo de manutenção e reposição adiciona uma camada de complexidade e custo operacional que dificilmente seria sustentável.

Debate estratégico e a corrida armamentista

Especialistas em defesa antimísseis, como Tom Karako, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), apontam que o relatório do CBO faz diversas suposições sobre o projeto. Karako ressalta que “nenhum sistema de defesa aérea consegue proteger o país inteiro o tempo todo”, indicando que ativos críticos seriam, de qualquer forma, mantidos em sigilo e com o mais alto nível de proteção.

A proposta do Domo Dourado também visa combater o advento de armas convencionais guiadas com precisão, capazes de atingir alvos estratégicos sem necessariamente desencadear uma retaliação nuclear. No entanto, o Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS) já alertou, em dezembro, que a construção de tal sistema poderia levar a Rússia e a China a aumentarem seus arsenais nucleares em resposta, intensificando uma nova corrida armamentista e desestabilizando a segurança global.

Historicamente, o Tratado de Mísseis Antibalísticos, assinado pelos Estados Unidos e pela União Soviética em 1972, impedia o desenvolvimento de sistemas como o Domo Dourado. A retirada dos EUA do tratado em 2001, sob a presidência de George W. Bush, abriu caminho para a possibilidade de uma rede defensiva como a proposta por Trump, mas também para as complexas implicações geopolíticas que agora se apresentam.

Proteção territorial e implicações globais

O relatório do CBO não detalhou os custos de proteção para todos os territórios americanos, mas mencionou que Guam, uma ilha estratégica no Pacífico, já está programada para receber um “extenso sistema de defesas integradas” fora do escopo do Domo Dourado. Outros territórios, como Samoa Americana, Ilhas Marianas do Norte, Porto Rico e Ilhas Virgens Americanas, poderiam ser protegidos por instalações regionais independentes.

A discussão em torno do Domo Dourado transcende as fronteiras americanas, impactando a dinâmica de poder global e a estabilidade estratégica. Os custos financeiros e as possíveis repercussões em termos de corrida armamentista tornam este um tema de relevância internacional, com desdobramentos que podem moldar o futuro das relações entre as grandes potências.

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