Emergências nos EUA se adaptam para oferecer atendimento especializado a idosos

Emergências nos EUA se adaptam para oferecer atendimento especializado a idosos

Saúde

A experiência de Cynthia Tompkins, uma professora aposentada de 75 anos de San Diego, Califórnia, ilustra uma transformação silenciosa, mas significativa, nos prontos-socorros dos Estados Unidos. Após uma série de desafios de saúde e perdas pessoais, Tompkins se viu em pânico ao ser levada a uma emergência em julho, esperando horas de desconforto em um ambiente caótico. Contudo, o que ela encontrou no pronto-socorro do UC San Diego Health em La Jolla superou suas expectativas, revelando um novo padrão de cuidado focado nas necessidades da população idosa.

Desde 2022, todos os prontos-socorros para adultos em San Diego foram credenciados como unidades geriátricas, um movimento que reflete uma tendência crescente em todo o país. Essa abordagem, que incorpora protocolos e ambientes redesenhados, tem se mostrado eficaz na redução de internações hospitalares e mortes entre idosos, além de diminuir custos, conforme apontam estudos recentes. A história de Tompkins é um testemunho direto da importância de um atendimento geriátrico mais humano e adaptado.

A Transformação do Atendimento de Emergência para Idosos

A mudança observada por Cynthia Tompkins não é um caso isolado, mas parte de um esforço coordenado para repensar o cuidado emergencial. O Colégio Americano de Médicos de Emergência credenciou 624 prontos-socorros geriátricos nos Estados Unidos desde 2017, incluindo unidades em centros médicos de Assuntos de Veteranos. Esse crescimento exponencial demonstra o reconhecimento da necessidade de um modelo de atendimento que vá além do padrão tradicional.

Ao contrário do que se poderia imaginar, poucas dessas unidades são exclusivas para pacientes idosos. Em vez disso, elas integram práticas e protocolos amigáveis à terceira idade em ambientes que atendem a todas as faixas etárias. O foco é prevenir desorientação, quedas e outros riscos específicos para os idosos, que representam uma parcela crescente e vulnerável dos pacientes de emergência.

Protocolos Geriátricos: Um Novo Padrão de Cuidado

O atendimento de emergência padrão, segundo especialistas como Kevin Biese, médico emergencista e diretor do Colaborativo de Prontos-Socorros Geriátricos, não foi projetado para as complexas necessidades dos idosos. Pacientes com 75 anos ou mais visitam o pronto-socorro em uma taxa superior a qualquer outro grupo etário, exceto bebês, com 76 visitas por 100 pessoas em 2022.

As inovações implementadas incluem:

  • Mobiliário adaptado: Macas com colchões mais grossos para prevenir escaras.
  • Ambiente acolhedor: Quartos com paredes que absorvem som para reduzir o ruído e janelas com vista para a natureza, que ajudam na orientação temporal e previnem o delirium.
  • Equipes treinadas: Profissionais focados não apenas na doença principal, mas nas causas subjacentes e na prevenção de futuros incidentes.
  • Triagem especializada: Avaliação rotineira para delirium e comprometimento cognitivo, além de revisão cuidadosa de todos os medicamentos.
  • Apoio sensorial: Disponibilização de óculos de leitura e amplificadores de som para combater o comprometimento sensorial.
  • Conforto ambiental: Diminuição de luzes ofuscantes e oferta de máscaras para os olhos e protetores auriculares para promover o sono.

Essas medidas visam mitigar os múltiplos desafios enfrentados pelos idosos, que frequentemente lidam com várias condições crônicas e tomam múltiplos medicamentos, exigindo uma abordagem de cuidado mais holística e integrada.

Desafios da Hospitalização e a Busca por Alternativas

Uma preocupação crescente nos departamentos de emergência é o tempo de espera prolongado, conhecido como “espera” ou “boarding”, quando pacientes internados aguardam leitos disponíveis. Para idosos, essa espera pode durar horas ou até dias, e os riscos são significativos. Pesquisadores da Escola de Medicina de Yale, como Cameron Gettel, apontam que a espera prolongada aumentou entre os idosos.

Estudos realizados na França com pacientes acima de 75 anos revelaram que aqueles mantidos no pronto-socorro durante a noite antes de serem transferidos para uma enfermaria apresentavam uma taxa de mortalidade hospitalar mais alta (15,7%) em comparação com aqueles admitidos antes da meia-noite (11,1%). A espera noturna também foi associada a mais quedas e infecções, sublinhando a urgência de um fluxo de atendimento mais eficiente e seguro.

A médica emergencista e pesquisadora Ula Hwang, do NYU Langone Health, enfatiza que a internação hospitalar nem sempre é a melhor opção para um idoso, podendo, em alguns casos, ser a pior. Pacientes hospitalizados estão mais expostos a infecções, erros da equipe e ao rápido descondicionamento físico que acompanha dias de repouso. O objetivo primordial dos prontos-socorros geriátricos é, portanto, ajudar os pacientes a evitar a hospitalização completamente, quando clinicamente apropriado, focando na prevenção e no cuidado ambulatorial.

A evolução dos prontos-socorros nos EUA para um modelo mais sensível às necessidades dos idosos representa um avanço crucial na saúde pública, garantindo que a terceira idade receba um atendimento mais digno, seguro e eficaz. É um reflexo da crescente conscientização sobre os desafios do envelhecimento populacional e a necessidade de sistemas de saúde adaptáveis.

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