Estudo revela que dois terços dos estudantes de medicina apresentam sintomas depressivos

Estudo revela que dois terços dos estudantes de medicina apresentam sintomas depressivos

Saúde

A rotina extenuante e a pressão por desempenho acadêmico na graduação em medicina têm cobrado um preço alto à saúde mental dos futuros profissionais brasileiros. Uma pesquisa recente, publicada no Brazilian Journal of Psychiatry, aponta que 66% dos estudantes de medicina no país apresentam sintomas de depressão moderada a grave. O levantamento, conduzido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), detalha um cenário preocupante que supera significativamente as médias globais para a categoria.

A rotina como fator de risco na formação médica

O estudo, que ouviu 1.026 alunos de 74 instituições públicas e privadas entre setembro de 2023 e setembro de 2024, identificou que a falta de tempo é o principal gatilho para o adoecimento. A carga horária excessiva, que muitas vezes exclui atividades de lazer, exercícios físicos e o convívio social, cria um ambiente propício para o esgotamento. Além da depressão, metade dos entrevistados (50,5%) também relatou sintomas de ansiedade, evidenciando uma crise que atravessa os seis anos de formação.

Para muitos estudantes, como Natália Barros, aluna do terceiro ano da Unifesp, a transição para a vida acadêmica intensa significa abrir mão de pilares fundamentais do bem-estar. “A última vez que eu senti que tinha tempo de sobra foi nas férias”, relata a estudante, que aponta a dificuldade de concentração e alterações no sono como reflexos diretos de uma agenda que não permite pausas.

O peso do currículo oculto e a cultura do sofrimento

Um dos pontos mais críticos levantados pela pesquisa é a naturalização desse sofrimento. O psiquiatra Rodolfo Furlan Damiano, pesquisador do CISM, destaca a existência de um “currículo oculto” nas faculdades. Segundo ele, a ideia de que o sofrimento e a privação de tempo são etapas necessárias para a formação médica é transmitida de geração em geração, o que dificulta a busca por ajuda e a implementação de mudanças institucionais efetivas.

Enquanto a média global de sintomas depressivos entre estudantes de medicina gira em torno de 27,2%, os dados brasileiros de 66% acendem um alerta para as políticas de acolhimento nas universidades. O estudo utilizou escalas validadas internacionalmente, como o PHQ-9 para depressão e o GAD-7 para ansiedade, para garantir a precisão dos diagnósticos autorrelatados pelos voluntários.

Desigualdades e o impacto na saúde mental

Além da carga horária, o estudo buscou entender como fatores socioeconômicos influenciam esse cenário. A pesquisa identificou que estudantes cotistas apresentam uma percepção de saúde mental ainda mais fragilizada, sugerindo que a vulnerabilidade econômica e a pressão por manter o desempenho acadêmico criam uma sobrecarga adicional. A necessidade de conciliar a exigência do curso com a sobrevivência financeira agrava o estresse, tornando o ambiente universitário um espaço de alta pressão.

O debate sobre a saúde mental nas faculdades de medicina ganha força à medida que os dados revelam que o problema não é individual, mas sistêmico. A necessidade de rever as grades curriculares e oferecer suporte psicológico contínuo torna-se urgente para evitar que o futuro da medicina seja construído sobre o adoecimento de seus próprios profissionais.

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