A queda de Li Shangfu e o recado de lealdade
Em um movimento que reafirma o controle centralizado sobre as instituições do país, um tribunal militar condenou, na quinta-feira (7), o ex-ministro da Defesa da China, Li Shangfu, à pena de morte. A sentença, contudo, será convertida em prisão perpétua, sem direito a liberdade condicional ou redução de pena. O julgamento também atingiu seu antecessor, Wei Fenghe, que recebeu a mesma punição por crimes de corrupção, incluindo o recebimento de subornos milionários e o favorecimento de aliados em nomeações estratégicas dentro das Forças Armadas.
A trajetória de Li Shangfu, que já foi uma figura central no programa espacial militar chinês, ilustra a volatilidade do poder sob a gestão de Xi Jinping. Nomeado ministro em março de 2023, mesmo enfrentando sanções dos Estados Unidos devido a contratos militares com a Rússia, Li desapareceu da vida pública meses depois. Sua demissão em outubro marcou o mandato mais curto de um chefe de defesa na história moderna do país.
O tom adotado pela imprensa estatal não deixa margem para interpretações brandas. O Diário do Exército de Libertação Popular publicou um editorial contundente, acusando os ex-ministros de “colapso de fé e perda de lealdade”. É a primeira vez que o termo “deslealdade” é associado publicamente a Li, sinalizando que a purga vai além de questões financeiras e toca o cerne da fidelidade ao Partido Comunista.
A estratégia de controle sobre as Forças Armadas
As condenações recentes não são eventos isolados, mas parte de uma campanha anticorrupção que tem remodelado a cúpula militar chinesa. Desde 2022, a escala dos afastamentos tem sido notável: dos 44 militares eleitos para o Comitê Central, pelo menos oito foram destituídos ou estão sob investigação. Em outubro de 2025, durante o Quarto Plenário, nove generais foram expulsos do Partido simultaneamente, e, em fevereiro, outros nove perderam seus mandatos na Assembleia Nacional Popular.
Embora analistas internacionais tenham sugerido que a frequência dessas quedas indicaria uma perda de controle de Xi Jinping sobre o Exército, a dinâmica interna aponta para o oposto. A capacidade de remover figuras de alto escalão — incluindo aliados cujas carreiras se entrelaçaram com a do próprio líder nas décadas passadas — demonstra uma concentração de autoridade sem precedentes. O Partido Comunista, sob a batuta de Xi, reafirma que o Exército deve servir integralmente aos seus desígnios, sem espaço para dissidências.
O futuro da liderança chinesa e o legado de Xi
A consolidação desse sistema sugere que Xi Jinping alcançou um patamar de poder onde o cargo de secretário-geral pode se tornar, na prática, uma formalidade burocrática. Interlocutores em Pequim indicam que o líder chinês poderia, em um cenário futuro, manter apenas a presidência da Comissão Militar Central, delegando a chefia do governo a figuras como o premiê Li Qiang, que atuaria como um fiador de seu legado.
Este arranjo não seria inédito na história política chinesa. Tanto Mao Tse-tung quanto Deng Xiaoping governaram o país mantendo o controle das forças militares enquanto outros ocupavam cargos formais de liderança. A diferença fundamental reside na estrutura construída por Xi, que unificou o Partido, o Estado e o Exército sob uma única vontade, tornando o sistema muito mais resiliente e menos dependente de manobras políticas constantes para a manutenção da autoridade.
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