Em uma análise aprofundada publicada em 9 de maio de 2026, Ian Bremmer, renomado fundador e presidente do Eurasia Group e colunista da revista Time, detalhou como uma hipotética guerra envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã transcenderia a desestabilização regional, provocando um realinhamento geopolítico histórico. Segundo Bremmer, este cenário não apenas dispararia os preços do petróleo e gás, perturbando a economia global, mas também forçaria aliados e rivais dos EUA a reavaliar suas posições diante de uma superpotência percebida como imprevisível e pouco confiável, moldando o equilíbrio de poder mundial na próxima década.
A perspectiva de um conflito de tal magnitude no Oriente Médio, uma região já marcada por tensões crônicas, serve como um catalisador para mudanças estruturais profundas. A análise de Bremmer não se limita aos impactos diretos da guerra, mas explora as ondas de choque que reverberariam por continentes, alterando alianças tradicionais e redefinindo estratégias nacionais.
Oriente Médio: novas alianças e fragilidades regionais
Os efeitos mais imediatos e contundentes da guerra seriam, naturalmente, sentidos na região onde ela se desenrola. Bremmer aponta que o conflito convenceria muitos Estados árabes do Golfo de que o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), uma estrutura diplomática, econômica e de segurança historicamente frágil e dividida, não mais atenderia aos seus propósitos. Essa percepção impulsionaria movimentos estratégicos distintos.
Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, já haviam sinalizado em 28 de abril a intenção de encerrar sua participação de quase seis décadas na Opep. A guerra intensificaria sua rivalidade com a Arábia Saudita, levando os EAU a um alinhamento mais estreito com Israel em áreas como inteligência, tecnologia e segurança, visando enfraquecer o regime em Teerã. Por outro lado, a Arábia Saudita buscaria uma coordenação mais próxima com a China, ao mesmo tempo em que fortaleceria laços militares com o Paquistão (uma potência nuclear), Egito e Turquia, na tentativa de encontrar um caminho para a coexistência pacífica com a República Islâmica. Embora ambos os blocos desejem manter laços de segurança com os EUA, a análise prevê uma drástica redução na coordenação de decisões em todo o Oriente Médio, marcando um realinhamento regional sem precedentes.
Relações transatlânticas: o declínio da unidade ocidental
A guerra no Irã também aceleraria o declínio das relações transatlânticas. Em um cenário onde a guerra da Rússia contra a Ucrânia já alimenta ansiedades na Europa, a decisão do governo Trump de focar a atenção dos EUA no Irã e, posteriormente, criticar a falta de apoio europeu, geraria um novo ímpeto para uma defesa coletiva europeia independente da OTAN. Embora seja improvável que o presidente Trump retire os EUA da aliança transatlântica, a retirada de 5.000 dos 36.000 soldados americanos lotados na Alemanha, anunciada em 1º de maio após críticas do primeiro-ministro alemão Friedrich Merz, elevaria os níveis de alerta no continente.
Ainda, a indiferença de Trump às objeções europeias sobre a suspensão de sanções contra a Rússia aprofundaria a fragmentação da aliança ocidental. Isso alimentaria o temor europeu de um eventual entendimento de segurança entre EUA e Rússia, aumentando as esperanças de Vladimir Putin de que a guerra na Ucrânia, então em um impasse, pudesse resultar em um avanço russo à medida que a OTAN se desintegrasse. Para mais informações sobre as dinâmicas de poder globais, consulte o Council on Foreign Relations.
Ásia e o desafio chinês: um realinhamento global complexo
Na Ásia, o fechamento efetivo do Estreito de Hormuz imporia severos golpes econômicos aos aliados dos EUA, como Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Esses países, assim como os parceiros europeus de Washington, sentiriam a insegurança quanto aos compromissos de segurança e econômicos de longo prazo do governo Trump. No entanto, a ausência de uma “OTAN asiática” ou de uma instituição similar à União Europeia limita suas alternativas à parceria com os EUA.
A pressão exercida pelo crescente poder econômico, tecnológico e militar da China complicaria ainda mais a situação. Com a China agindo de forma mais assertiva contra o partido governista de Taiwan (DPP) e o governo liberal do Japão (LDP), a possibilidade de os aliados asiáticos da América buscarem maior independência de Washington seria significativamente reduzida, diferentemente do cenário europeu.
A ascensão estratégica da China no novo cenário
A China, ciente do crescimento econômico mais lento e dos riscos representados pelo “aventureirismo” de Donald Trump no Oriente Médio e de Vladimir Putin na Ucrânia, adotaria uma postura cautelosa, evitando novos riscos. Em vez disso, o líder Xi Jinping provavelmente usaria uma iminente visita de Trump a Pequim para consolidar as credenciais de Trump como pacificador internacional, possivelmente em troca de um repúdio explícito à independência de Taiwan.
Em contrapartida, Xi poderia prometer compromissos chineses significativos para impulsionar a economia americana com um aumento dramático nas compras de produtos dos EUA. Essa tentação, segundo Bremmer, seria difícil de resistir para Trump, e seria observada de perto pelos aliados americanos na Ásia e em outras partes do mundo.
Além disso, a guerra no Oriente Médio aceleraria outra mudança crucial envolvendo a China: a demonstração da facilidade e baixo custo de fechar o Estreito de Hormuz ao comércio de petróleo e gás. Isso elevaria os níveis de alerta para outros gargalos estratégicos, como o Bab al-Mandab e o Estreito de Malaca. A liderança global da China em energia sustentável, veículos elétricos, baterias e minerais críticos, bem como seu reprocessamento, tornaria Pequim um parceiro comercial muito mais atraente para os principais importadores de energia do mundo, em sua transição para a produção de energia pós-carbono. Embora os EUA, como maior produtor de hidrocarbonetos, e o dólar se beneficiassem no curto prazo, a mudança estrutural favoreceria a China a longo prazo.
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