A Universidade de São Paulo (USP), uma das mais prestigiadas instituições de ensino superior do Brasil, enfrenta um novo capítulo em sua crise interna. Nesta segunda-feira (25), os professores da instituição decidiram entrar em greve, unindo-se à paralisação estudantil que já se estende desde 15 de abril. A mobilização docente visa pressionar por reajuste salarial e manifestar apoio aos alunos, além de se posicionar contra o que consideram a “criminalização” das ações estudantis.
A decisão foi tomada durante assembleia da Associação de Docentes da USP (Adusp), que representa a categoria. O movimento grevista reflete uma insatisfação crescente com as condições de trabalho e a gestão universitária, em um cenário de tensões que escalaram nas últimas semanas.
Reivindicações salariais em pauta
No cerne das demandas dos professores está a busca por um reajuste salarial que compense as perdas inflacionárias e garanta um ganho real. A Adusp reivindica uma correção de 4,39%, baseada no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), somada a um ganho real de 3%. Essa proposta contrasta significativamente com a oferta do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp).
O Cruesp propôs um reajuste de 3,47%, mas com aplicação somente a partir de maio de 2026, e com base no IPC-Fipe acumulado de maio de 2025 a abril de 2026. A Adusp prontamente rejeitou essa proposta, considerando-a insuficiente e tardia. A categoria defende a reabertura das negociações com o Cruesp e o Fórum das Seis, que congrega entidades sindicais e estudantis das três universidades estaduais paulistas (USP, Unesp e Unicamp) e do Centro Paula Souza (Ceeteps). Uma nova assembleia da Adusp já está agendada para 1º de junho, indicando a continuidade da mobilização.
Apoio estudantil e a questão do Papfe
A greve dos professores não se limita apenas às questões salariais. Ela se alinha diretamente às principais demandas dos estudantes, que estão paralisados desde 15 de abril. A pauta estudantil é encabeçada pelo aumento do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (Papfe), um auxílio fundamental para garantir que alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica possam se manter na universidade e concluir seus estudos. A expansão do Papfe é vista como crucial para a inclusão e a democratização do acesso ao ensino superior público.
O cenário de tensão se intensificou após o reitor da USP, Aluisio Segurado, realizar três reuniões sobre as reivindicações, mas encerrar as negociações de forma unilateral em 4 de maio. Essa decisão impulsionou os estudantes a uma ação mais drástica, culminando na ocupação da reitoria.
Ocupação da reitoria e a ação policial
Três dias após o encerramento das negociações, em 7 de maio, os alunos ocuparam o prédio da reitoria da USP, buscando pressionar pela reabertura do diálogo. A ocupação, no entanto, teve um desfecho conturbado na madrugada de domingo (10), quando a Polícia Militar (PM) realizou a desocupação do edifício.
Segundo relatos dos estudantes, a ação policial foi marcada pelo uso de bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e cassetetes, gerando um clima de confronto. Em contrapartida, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) divulgou uma nota afirmando que a intervenção foi motivada por registros de danos ao patrimônio público, como portões derrubados, vidros estilhaçados e catracas avariadas, além de diversos objetos destruídos no interior do edifício. A SSP também informou que foram apreendidas drogas, facas, canivetes, bastões e porretes no local, o que adiciona uma camada de complexidade à narrativa dos eventos. Para mais informações sobre a situação nas universidades estaduais, clique aqui.
Debate sobre criminalização e futuro acadêmico
A questão da “criminalização” dos estudantes é um ponto central na pauta dos professores. Eles exigem que os alunos não sejam punidos pelas ações decorrentes da mobilização e que haja uma apuração rigorosa das responsabilidades da PM durante a desocupação da reitoria. Essa demanda reflete uma preocupação com a autonomia universitária e o direito à manifestação dentro dos campi.
Além disso, os docentes defendem a reorganização do semestre acadêmico, visando minimizar os impactos da paralisação nas atividades de ensino e pesquisa. A tensão no campus não se restringiu à reitoria; em 11 de maio, um protesto organizado por alunos das universidades estaduais de São Paulo resultou em intervenção da PM após um confronto entre manifestantes e os vereadores Adrilles Jorge e Rubinho Nunes, ambos do União Brasil, evidenciando a dimensão política e social do movimento.
A greve dos professores da USP, em conjunto com a paralisação estudantil, sinaliza um período de incertezas para a instituição. O desfecho das negociações e a forma como a universidade e as autoridades lidarão com as demandas e as acusações de criminalização determinarão o futuro imediato do ensino e da pesquisa na maior universidade pública do estado. Acompanhe o Diário Global para obter as últimas atualizações e análises aprofundadas sobre este e outros temas relevantes, reforçando nosso compromisso com informação de qualidade e contextualizada.
