Em um cenário político cada vez mais digitalizado, o uso de ferramentas de impulsionamento em redes sociais se tornou uma estratégia comum para alcançar eleitores. No entanto, o Partido Liberal (PL) e o Partido dos Trabalhadores (PT) foram flagrados ignorando a legislação eleitoral ao gastar pelo menos R$ 277 mil para ampliar o alcance de publicações com críticas diretas a seus adversários. Essa prática, que resultou em mais de 39,1 milhões de impressões, levanta sérias questões sobre a fiscalização e a equidade nas campanhas eleitorais brasileiras.
A conduta dos partidos, revelada por dados da Biblioteca de Anúncios da Meta, empresa que controla Facebook e Instagram, contraria as resoluções da Justiça Eleitoral que proíbem o impulsionamento de conteúdo negativo durante os períodos de pré-campanha e campanha. Embora pré-candidatos e partidos possam expressar opiniões contrárias aos opositores, é vedado o investimento financeiro para que essas mensagens atinjam um público maior, garantindo um debate mais justo e menos influenciado por poder econômico.
A estratégia do impulsionamento e seu alcance massivo
O impulsionamento de conteúdo nas redes sociais permite que uma publicação, que naturalmente alcançaria apenas uma fração dos seguidores de uma página, seja exibida a um número exponencialmente maior de usuários, segmentados por interesses, localização e outros dados demográficos. No caso do PL e do PT, essa tática foi empregada para disseminar críticas, transformando as plataformas digitais em campos de batalha com recursos financeiros.
Os R$ 277 mil gastos pelos dois partidos resultaram em um alcance impressionante de 39,1 milhões de impressões. Esse número, que representa a quantidade de vezes que o conteúdo apareceu nas telas dos usuários, demonstra o potencial de influência dessas campanhas pagas na formação da opinião pública e na percepção dos eleitores sobre os candidatos e seus partidos.
As táticas do PL contra opositores
O Partido Liberal, em sua estratégia de comunicação digital, direcionou uma parcela significativa de seus recursos para atacar o ex-presidente Lula e o PT. Das 82 postagens patrocinadas no Facebook e Instagram entre janeiro e 24 de junho, 34 continham críticas diretas ao petista ou ao seu partido, o que corresponde a 41% do total. Curiosamente, o PL impulsionou mais publicações para atacar seus rivais do que para promover a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
Entre os temas abordados nos anúncios do PL, destacam-se tentativas de vincular o PT a escândalos como o do Banco Master. O partido manteve a veiculação de propaganda desfavorável aos adversários até o dia 21 de junho, indicando uma persistência na estratégia de ataque digital.
O PT e as críticas aos Bolsonaros
Do lado do Partido dos Trabalhadores, a mira esteve voltada para os Bolsonaros. O PT realizou 76 anúncios com críticas à família, representando quase 18% das 429 publicações impulsionadas neste ano. As críticas abordaram diversos temas, incluindo a pressão exercida pelo ex-presidente americano Donald Trump contra o Brasil, supostamente articulada pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Diferentemente do PL, o PT afirmou ter interrompido o impulsionamento de conteúdo negativo desde abril, priorizando a promoção da imagem do presidente Lula. Essa mudança de estratégia pode indicar uma adaptação às crescentes pressões e decisões da Justiça Eleitoral.
O que diz a legislação eleitoral e o papel do TSE
A legislação eleitoral brasileira é clara ao proibir o impulsionamento de conteúdo com críticas a adversários durante os períodos eleitorais. O objetivo é evitar que o poder econômico distorça o debate público, permitindo que mensagens negativas, muitas vezes sem base factual sólida, ganhem um alcance desproporcional. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem atuado ativamente na fiscalização dessas práticas, emitindo decisões para a remoção de conteúdos impulsionados de forma irregular.
As ações judiciais movidas por ambos os lados, com decisões do TSE para a remoção dos conteúdos, demonstram a seriedade com que a Corte tem tratado o tema. A regulação da propaganda eleitoral na internet é um desafio constante, dada a velocidade e o alcance das informações nas plataformas digitais, exigindo um monitoramento contínuo e atualizações nas normativas.
As respostas dos partidos e das plataformas
Questionado sobre as práticas, o PT declarou que impulsionou 37 conteúdos no Facebook e Instagram
