Em um cenário de persistente violência e intimidação contra defensores de direitos humanos no Brasil, Jurandy Pacífico, filho da ialorixá e líder quilombola Mãe Bernadete, anunciou sua desistência da candidatura a deputado federal pela Bahia nas eleições deste ano. A decisão, classificada como “extremamente difícil e dolorosa”, foi motivada por preocupações com sua segurança e a de sua família, após os assassinatos de sua mãe e de seu irmão, Binho do Quilombo, que também lutava pelos direitos dos povos tradicionais.
O recuo de Jurandy Pacífico não é um ato isolado, mas um reflexo da vulnerabilidade enfrentada por lideranças comunitárias que buscam representação política. Ele havia se lançado na disputa eleitoral com o objetivo de levar a voz dos quilombos para o Congresso Nacional, buscando melhorias nas condições de vida das comunidades tradicionais e quilombolas da Bahia. No entanto, o apelo familiar e a sombra da violência que já ceifou a vida de entes queridos se mostraram mais fortes.
A Sombra da Violência na Luta Quilombola
A história de Mãe Bernadete e sua família é um doloroso exemplo da violência que atinge defensores de direitos humanos, especialmente aqueles ligados a comunidades tradicionais. Mãe Bernadete, uma figura emblemática na luta quilombola e ialorixá respeitada, foi brutalmente assassinada há três anos. Seu filho, Binho do Quilombo, que também era um ativista incansável, teve sua vida interrompida pela mesma violência, deixando Jurandy Pacífico como o único filho vivo da líder.
Esses crimes não apenas silenciaram vozes importantes, mas também geraram um clima de medo e insegurança que permeia as comunidades quilombolas e seus líderes. A impunidade ou a lentidão na resolução de tais casos contribuem para a perpetuação de um ciclo de intimidação, que agora alcança o processo democrático, impedindo a plena participação de representantes dessas comunidades.
A Decisão Dolorosa de Jurandy Pacífico
Jurandy Pacífico comunicou sua decisão à Rádio Nacional antes mesmo da avaliação da Justiça Eleitoral e a oficializou em seu perfil nas redes sociais e em uma carta de próprio punho. Ele explicou que, após ouvir familiares, amigos e companheiros do movimento quilombola, foi aconselhado a priorizar a preservação da própria vida e da segurança de sua família.
“Por motivo de segurança, pela família estar me orientando para não sair, que eu não posso adentrar todos os lugares. Apesar de que o objetivo de me lançar candidato era mudar a realidade das comunidades quilombolas da Bahia, mas o sábio não é aquele que fala, é aquele que escuta. Recuei. Às vezes, é necessário dar um passo para trás para dar dois para frente”, declarou Jurandy, expressando a complexidade de sua escolha. Ele reconheceu que continuar com a candidatura poderia representar uma “exposição ainda maior a riscos que não podem ser ignorados”.
Repercussão e o Desafio da Segurança Pública
A notícia da desistência de Jurandy foi recebida com tristeza por diversas autoridades e ativistas. Felipe Freitas, secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, lamentou a decisão, destacando a preocupação com a intimidação de defensores de direitos humanos no processo eleitoral. Ele reforçou que a Polícia Militar da Bahia mantém uma estratégia de segurança permanente para Jurandy e o neto de Mãe Bernadete desde os trágicos acontecimentos.
“Recebo com muita tristeza a notícia de que Jurandy desistiu da sua candidatura a deputado, no sentido de que é sempre muito ruim que um defensor de direitos humanos, por qualquer razão, se sinta ameaçado, intimidado e se desestimule a colocar as suas ideias à disposição do processo eleitoral”, afirmou Freitas. O secretário reiterou o compromisso de acompanhar o processo eleitoral com medidas de proteção que garantam a integridade e a participação política livre de todos os cidadãos, especialmente aqueles que se dedicam à defesa de causas sociais.
O Legado e a Continuidade da Luta
Apesar de sua retirada da corrida eleitoral, Jurandy Pacífico deixou claro que a decisão não significa o abandono de seus compromissos com os povos quilombolas e tradicionais. Em sua carta de renúncia, ele enfatizou que a luta por segurança e direitos continua, independentemente da plataforma política.
“A candidatura pode parar, mas a luta continua. Desistir dessa candidatura nunca foi e nunca será desistir da luta por segurança, seguimos em frente. A decisão pela segurança, pela família, pela sobrevivência é mais uma prova de luta e o legado continua. Hoje eu deixo a disputa eleitoral, mas nunca vamos deixar nossos princípios e nossos ideais”, reiterou. A situação de Jurandy Pacífico serve como um alerta sobre os desafios enfrentados por aqueles que ousam lutar por justiça e representatividade em um país onde a violência ainda é uma barreira para a plena democracia. A busca por memória e justiça para Mãe Bernadete e Binho do Quilombo permanece, e com ela, a esperança de que a segurança e a participação política sejam garantidas a todos.
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