Perimenopausa: o alerta silencioso para a saúde do coração feminino

Perimenopausa: o alerta silencioso para a saúde do coração feminino

Saúde

As transformações que elevam o risco de doenças cardíacas em mulheres não aguardam a chegada da menopausa para se manifestar. É durante a perimenopausa, o período de transição que antecede a última menstruação, que o organismo feminino começa a emitir sinais discretos, mas significativos, de que a proteção cardiovascular está sendo alterada. O ganho de gordura abdominal, a elevação sutil da pressão arterial e a piora nos níveis de colesterol são indicadores que, muitas vezes, passam despercebidos na rotina.

A transição hormonal e o impacto metabólico

O estrogênio desempenha um papel fundamental na regulação dos vasos sanguíneos, na distribuição da gordura corporal e no metabolismo do colesterol. Com a oscilação na produção desse hormônio durante a perimenopausa, o perfil metabólico da mulher sofre alterações diretas. Segundo especialistas, essa fase favorece o acúmulo de gordura no abdômen, um fator de risco crítico para o desenvolvimento de problemas cardiovasculares a longo prazo.

A ginecologista Lucia Helena Paiva, presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Febrasgo, ressalta que as mudanças iniciais são graduais. O ganho de peso moderado e as leves oscilações na pressão arterial não configuram, por si só, uma doença, mas funcionam como um alerta clínico. O acúmulo de placas nas paredes dos vasos sanguíneos, iniciado nesse período, pode ter consequências severas que se manifestam apenas anos mais tarde, tornando o monitoramento preventivo indispensável.

Subdiagnóstico e o desafio do infarto feminino

Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), publicado em 2025, aponta que as doenças cardiometabólicas em mulheres ainda são frequentemente subdiagnosticadas e subtratadas. No Brasil, as doenças cardiovasculares ocupam o topo da lista de causas de morte entre o público feminino, superando inclusive os índices de mortalidade por câncer, conforme dados do Ministério da Saúde.

O desafio clínico é agravado pela forma como os sintomas se apresentam. Diferente do quadro clássico de dor no peito que irradia para o braço, o infarto em mulheres pode se manifestar por meio de náuseas, dor no estômago, suor frio e um cansaço extremo. Esses sinais são rotineiramente confundidos com crises de ansiedade ou distúrbios gástricos, o que atrasa o diagnóstico e o socorro imediato.

Vulnerabilidade e atenção médica especializada

A gravidade do cenário é corroborada por estudos recentes. Uma pesquisa da PUC do Paraná, também de 2025, revelou que mulheres entre 45 e 55 anos apresentam um risco de morte pós-infarto superior ao de homens na mesma faixa etária. Esse dado reforça a necessidade de um olhar mais atento à saúde da mulher durante a transição climatérica.

Carlos Japhet, presidente do Departamento da Mulher da SBC, reforça que, embora a menopausa seja um marco cronológico claro — definido após 12 meses sem fluxo menstrual —, a preparação para a saúde do coração deve começar muito antes. O histórico gestacional e o estilo de vida são peças-chave para que médicos possam traçar o perfil de risco individual e intervir precocemente, evitando que fatores de alerta se transformem em hipertensão ou obesidade crônica.

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