9.mai.2026/AFP

Keiko Fujimori e Roberto Sánchez devem disputar a presidência do Peru em novo segundo turno

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O cenário político do Peru caminha para uma reedição de seus embates mais profundos. Após uma apuração lenta e marcada por incertezas, a fase final da contagem de votos indica que o país terá, mais uma vez, um segundo turno polarizado. De um lado, Keiko Fujimori, herdeira do fujimorismo; do outro, Roberto Sánchez, ex-ministro que representa a continuidade do projeto político de Pedro Castillo.

Este desfecho, embora esperado por analistas, consolida uma divisão social que parece não encontrar trégua. Com 99,9% das urnas processadas, a vantagem de Sánchez sobre o terceiro colocado, o ultradireitista Rafael López Aliaga, é mínima, mas suficiente para garantir sua vaga na rodada decisiva marcada para o dia 7 de junho. O país, que já viu nove presidentes ocuparem a cadeira em um curto espaço de tempo, mergulha agora em 26 dias de intensa campanha eleitoral.

O peso do sobrenome Fujimori e a herança de Castillo

Pela quarta vez consecutiva, Keiko Fujimori alcança a etapa final de uma eleição presidencial. Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, ela carrega tanto a lealdade de uma base sólida quanto a rejeição de uma parcela significativa da população que associa seu nome ao autoritarismo dos anos 1990. Sua resiliência política é notável, mas o teto eleitoral imposto pelo “antifujimorismo” tem sido seu maior obstáculo nas últimas três tentativas.

Desta vez, seu oponente é Roberto Sánchez, um psicólogo que serviu como ministro no governo de Pedro Castillo. A conexão com Castillo é o ponto central da narrativa de Sánchez. Castillo, um professor rural que venceu Keiko em 2021, acabou preso em 2022 após uma tentativa frustrada de autogolpe. Sánchez tenta herdar o voto popular e rural que elegeu seu antigo aliado, prometendo reformas sociais em um sistema que muitos peruanos consideram excludente.

Reedição de 2021 e a sombra da instabilidade política

O embate entre Fujimori e Sánchez é visto por muitos como um “déjà vu” da eleição anterior. Em 2021, a disputa entre Keiko e Castillo foi decidida por uma margem estreitíssima, evidenciando um país rachado ao meio. A atual configuração sugere que o eleitorado peruano continua buscando soluções em polos opostos, ignorando alternativas de centro que não conseguiram ganhar tração em um ambiente de alta fragmentação partidária.

A instabilidade institucional do Peru é um fator que não pode ser ignorado. A facilidade com que o Congresso utiliza o mecanismo de “vacância moral” para destituir presidentes criou um ambiente de governo perpétuo de crise. Segundo dados da Organização das Nações Unidas, a estabilidade democrática na região depende da capacidade das instituições de processar divergências sem rupturas, algo que o Peru tem tido dificuldade em realizar na última década.

Contagem de votos marcada por atrasos e acusações de fraude

A jornada eleitoral deste ano foi particularmente conturbada. Problemas logísticos forçaram o fechamento temporário de centros de votação na região metropolitana de Lima, afetando milhares de eleitores. A demora de mais de um mês para a consolidação dos resultados do primeiro turno alimentou teorias conspiratórias e tensões sociais.

Rafael López Aliaga, que flertou com a vaga no segundo turno durante o início da apuração, não aceitou o resultado prontamente. Adotando uma retórica semelhante à de líderes populistas de direita em outros países, Aliaga denunciou uma suposta fraude eleitoral, embora não tenha apresentado provas concretas. No entanto, observadores internacionais da União Europeia elogiaram a transparência dos órgãos eleitorais peruanos, reforçando a legitimidade do processo apesar dos atrasos técnicos.

Cenário de fragmentação desafia a governabilidade peruana

Independentemente de quem vença em junho, o próximo presidente enfrentará um Congresso altamente fragmentado. No Peru, a vitória na eleição presidencial raramente vem acompanhada de uma maioria legislativa, o que obriga o Executivo a negociações constantes e, muitas vezes, paralisantes. A fragmentação é o reflexo de uma crise de representatividade onde os partidos políticos funcionam mais como veículos eleitorais temporários do que como instituições programáticas.

O desafio para Keiko Fujimori será convencer o eleitor moderado de que ela pode governar para além do círculo fujimorista. Para Roberto Sánchez, o desafio será desvincular sua imagem do caos institucional que marcou o fim do governo Castillo, mantendo ao mesmo tempo o apoio das bases populares que clamam por mudança. O destino do Peru, mais uma vez, está nas mãos de um eleitorado profundamente dividido e cansado de promessas não cumpridas.

No Diário Global, continuamos acompanhando de perto os desdobramentos da política internacional e os impactos das decisões democráticas na América Latina. Fique atento às nossas atualizações para compreender os rumos desta eleição histórica no Peru e outras notícias que moldam o nosso mundo.

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