Na última sexta-feira, 26 de junho de 2026, o programa Sem Censura, da TV Brasil, abriu espaço para um capítulo fundamental da história do esporte nacional. Três mulheres que desafiaram proibições e preconceitos para construir o futebol feminino no Brasil – Marilza Martins da Silva, a Pelezinha; Marisa Pires, a Caju, primeira capitã da seleção brasileira feminina; e Márcia Matos, a Russa – compartilharam suas trajetórias de luta e paixão. Suas narrativas resgatam um período em que o futebol para mulheres era oficialmente proibido, uma realidade que perdurou por décadas e moldou a jornada dessas atletas, conforme noticiado pela Agência Brasil.
O futebol feminino no Brasil enfrentou um longo e árduo caminho. Desde os anos 1940, um decreto do então presidente Getúlio Vargas impedia a prática da modalidade por mulheres, sob o argumento de que seria “incompatível com a natureza feminina”. Essa proibição só foi revogada em 1980, abrindo as portas para uma nova era, ainda que repleta de desafios e sem o devido apoio institucional. Foi nesse cenário que o Esporte Clube Radar, em Copacabana, Rio de Janeiro, emergiu como um farol para a modalidade, tornando-se o berço de muitas das pioneiras.
O Legado do Esporte Clube Radar e o Sonho da Amarelinha
Fundado em 1932, o Esporte Clube Radar, localizado na zona sul carioca, desempenhou um papel insubstituível na formação do futebol feminino brasileiro. Sob a liderança visionária do empresário Eurico Lyra, o clube abraçou a modalidade em 1981, tornando-se a base da própria seleção brasileira feminina durante a década de 1980. Foi ali que talentos como Pelezinha floresceram.
Marilza Martins da Silva, carinhosamente apelidada de Pelezinha por Eurico Lyra, relembrou a origem de seu nome. “Ela corre e não pisa na areia. Ela flutua e consegue driblar na areia. Aí ela é a Pelezinha”, comemorou o empresário ao observar sua leveza nos treinos. A paixão pelo esporte era o combustível principal, e o reconhecimento internacional, um sonho distante que se tornou realidade em 1988. Naquele ano, Eurico comunicou às atletas que elas representariam a Seleção Brasileira Feminina de Futebol na China, no que seria o primeiro Mundialito feminino. A emoção de vestir a camisa amarelinha, com o emblema da CBF e o escudo do Radar, foi indescritível para Pelezinha, que confessou não ter a dimensão do que aquilo significava na época.
“A gente tinha um sonho de jogar o primeiro mundial feminino. A gente não sabia se isso seria possível, porque o futebol ainda não existia”. Mas quando aconteceu o primeiro mundial feminino e fui convocada, disse: “Meu Deus vou ter de voltar à China para realizar esse sonho que eu tinha, né”.
Futebol Feminino: Desafios em Campo e a Luta por Visibilidade
Apesar da empolgação, as condições eram muito diferentes das atuais. A capitã da seleção feminina no primeiro campeonato mundial, Marisa Pires, a Caju, abordou a questão da visibilidade e do apoio financeiro. Respondendo a uma pergunta de Renata Rodrigues de Oliveira, moradora de Copacabana, sobre os estádios cheios hoje, Caju fez questão de corrigir uma percepção comum: “Os estádios sempre foram lotados. Os jovens pensam que os estádios ficavam vazios, mas não ficavam. Todos queriam ir assistir aos jogos, para ver se as mulheres jogavam bem. Os homens se surpreenderam e diziam que futebol também é para mulher.”
Apesar do público presente, a realidade financeira das atletas era precária. Caju revelou que, naquela época, as jogadoras não recebiam salário fixo. O que ganhavam era o “bicho”, um valor em dinheiro pago por partida, e apenas em caso de vitória. “Se perdessem, não levavam nada para casa”, lamentou. Essa persistência, movida puramente pelo amor e paixão pelo esporte, foi o que, segundo ela, elevou o futebol feminino ao patamar atual. A Russa, Márcia Matos, que foi bicampeã sul-americana em 1991 e 1995 e também participou do Mundialito, endossa a narrativa de sacrifícios e dedicação que pavimentou o caminho para as gerações futuras.
A Conquista da Reparação Histórica e o Futuro
A trajetória de sacrifícios e glórias dessas pioneiras ganhou um novo capítulo de reconhecimento. Um telespectador, Lucas, mencionou a recente lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prevê o pagamento de R$ 500 mil para as atletas do futebol feminino que representaram o Brasil entre 1988 e 1991. A notícia trouxe grande emoção às ex-jogadoras. “Foram 38 anos esperando. Ele veio tarde, mas veio muito bem. Só Deus sabe a emoção que a gente está tendo”, declarou Caju, visivelmente emocionada. A premiação também se estende aos familiares das atletas já falecidas, garantindo que o legado de todas seja honrado.
Pelezinha expressou sua gratidão e a realização de um sonho tardio: “Eu não pude realizar todos os planos quando jogava. Mas Deus me deu essa força, de chegar aos 62 anos e realizar metade dos planos que sonhei”. Caju complementou, com lágrimas nos olhos: “Deus me permitiu, aos 59 anos, ter essa vitória. A vitória de hoje vai ajudar muito no nosso futuro. A gente vai poder viver e descansar um pouquinho. O meu choro é por toda uma geração que conseguiu essa conquista”.
Márcia Matos, a Russa, fez questão de destacar uma figura crucial por trás dessa conquista: a jogadora Marileia dos Santos, conhecida como Michel Jackson, que atualmente atua no Ministério do Esporte. Russa revelou que Michel Jackson trabalhou incansavelmente e em silêncio por oito anos para que essa lei fosse aprovada. “Nós temos que ter essa gratidão a Michel. Ela foi incansável. Correu atrás e conseguiu que as atletas pioneiras do futebol feminino fossem beneficiadas”, celebrou.
A história dessas mulheres é um testemunho da resiliência e da paixão que transformaram o futebol feminino no Brasil. Suas vozes no Sem Censura não apenas resgatam memórias, mas também reforçam a importância de valorizar e reconhecer aqueles que, contra todas as adversidades, abriram caminho para as gerações futuras.
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