Durante décadas, consolidou-se no imaginário coletivo a narrativa de que o vibrador elétrico teria surgido na Inglaterra vitoriana como uma ferramenta médica. Segundo essa versão, médicos da época, exaustos de realizar massagens manuais em pacientes diagnosticadas com “histeria”, teriam inventado o dispositivo para induzir o orgasmo feminino de forma mais eficiente. A história, que serviu de base para livros, peças de teatro e até para o filme Histeria, parecia perfeita: uma mistura de ironia, repressão sexual e inovação tecnológica.
A desconstrução de uma narrativa histórica
A tese, popularizada pelo livro The Technology of Orgasm, publicado em 1999 por Rachel Maines, foi aceita como fato acadêmico por anos. No entanto, a historiadora do sexo Hallie Lieberman, ao realizar uma revisão minuciosa das fontes citadas na obra, descobriu que o relato não possuía respaldo documental. O que parecia ser uma prática clínica de masturbação era, na verdade, uma interpretação equivocada de registros históricos.
Ao lado de Eric Schatzberg, professor de História da Tecnologia no Georgia Institute of Technology, Lieberman dedicou nove anos a uma investigação exaustiva. A dupla revisou textos médicos em inglês, francês, grego e latim. O resultado da pesquisa, publicado em 2018 no Journal of Positive Sexuality, revelou que os dispositivos da época eram destinados a tratamentos terapêuticos convencionais, como a recuperação de fraturas, problemas de audição e dores musculares em regiões como coluna, quadris e pescoço.
Ciência e o silêncio acadêmico
Um dos pontos centrais da investigação foi confrontar a ideia de que a medicina vitoriana ignorava a função sexual do clitóris. Os pesquisadores encontraram evidências de que os médicos da época compreendiam perfeitamente a fisiologia feminina. A ideia de que profissionais da saúde estariam realizando atos sexuais sem reconhecê-los como tal foi classificada pelos autores como uma construção anacrônica e improvável.
A trajetória para publicar essa correção histórica não foi simples. Lieberman e Schatzberg enfrentaram resistência de editores e da própria academia, em um fenômeno que descrevem como uma “espiral do silêncio”. Doze revistas científicas recusaram o artigo antes de sua publicação, com alguns editores chegando a acusar os historiadores de ataques pessoais contra a autora da tese original.
O impacto do mito na cultura popular
Apesar das evidências científicas apresentadas, a narrativa do “vibrador médico” permanece enraizada na cultura popular. Para os historiadores, o sucesso do mito reside no fato de ser uma história atraente e conveniente, que preenche lacunas sobre a história da sexualidade feminina com uma explicação que parece lógica, mesmo que falsa. A medicina, historicamente, demorou séculos para dedicar atenção científica ao prazer feminino, e o mapeamento tridimensional dos nervos do clitóris, por exemplo, é um avanço recente, datado apenas deste ano.
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