A realidade da enfermagem no estado de São Paulo é marcada por um cenário alarmante de violência. Uma pesquisa recente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) aponta que sete em cada dez profissionais da categoria relatam ter sido vítimas de algum tipo de agressão no ambiente de trabalho nos últimos 12 meses. O levantamento expõe uma rotina de riscos que vai desde xingamentos e ameaças até agressões físicas, impactando diretamente a saúde e a segurança desses trabalhadores essenciais.
Os dados, que vêm à tona em um momento de crescente debate sobre as condições de trabalho na área da saúde, acendem um alerta para a necessidade urgente de medidas de proteção. A violência não apenas compromete o bem-estar dos profissionais, mas também pode afetar a qualidade do atendimento prestado à população, gerando um ciclo vicioso de insatisfação e insegurança.
Relatos de Agressão: A Rotina de Risco dos Profissionais
As histórias de profissionais como Vanessa Scarcella, enfermeira de 44 anos, ilustram a gravidade da situação. Recém-formada, Vanessa foi agredida por um paciente em um hospital público do litoral norte paulista, irritado com a longa fila de espera. “Ele me segurou pelo crachá, me jogou no chão e me deu um chute na barriga. Eu tinha 21, 22 anos”, relembra. Anos depois, em um hospital privado da capital, sofreu nova agressão por um colega de outra profissão, sendo jogada ao chão e tendo o punho apertado. A denúncia, no entanto, resultou em seu desligamento, com o sumiço das provas em vídeo, um desfecho que ressalta a impunidade e a vulnerabilidade dos profissionais.
Esses episódios, que antes poderiam ser considerados isolados, agora se consolidam em estatísticas preocupantes. A agressão verbal, física e psicológica se tornou parte da rotina, com crachás arrancados, socos e ameaças com armas sendo relatados. A demora no atendimento e a estrutura precária das instituições públicas são apontados como os principais estopins para a ira de pacientes e acompanhantes, que acabam descontando sua frustração nos profissionais da linha de frente.
Pesquisa do Coren-SP Detalha a Frequência e Causas da Violência
O levantamento do Coren-SP ouviu 4.402 enfermeiros, técnicos e auxiliares entre 20 e 24 de julho, abrangendo uma amostra proporcional à distribuição da categoria no estado, que conta com cerca de 670 mil profissionais ativos. Os resultados são contundentes: 72,6% dos entrevistados foram vítimas de agressões. Mais de uma vez, 41,3% foram agredidos, e 15,5% relataram sofrer violência com frequência.
Embora o número seja ligeiramente menor que o de uma pesquisa anterior do conselho, realizada em maio de 2025, que registrou 80,3% de agressões, o presidente do Coren-SP expressou surpresa, esperando uma redução mais significativa após as campanhas de prevenção implementadas no último ano. A persistência dos altos índices demonstra que as ações atuais ainda são insuficientes para conter o problema.
Propostas Legislativas Buscam Proteger a Categoria
Diante da gravidade da situação, o tema tem ganhado espaço no debate público e legislativo. Na última terça-feira, 4 de agosto, uma audiência pública na Câmara Municipal de São Paulo discutiu a questão. Tramita na casa um projeto de lei da vereadora Ana Carolina Oliveira (Podemos) que visa obrigar unidades de saúde do município – sejam públicas, privadas ou conveniadas ao SUS – a implementar políticas robustas de prevenção, registro, acolhimento e resposta a casos de violência e assédio contra a enfermagem.
Entre as medidas previstas pelo projeto municipal estão o controle de acesso, a instalação de botões de pânico, o atendimento médico e psicológico imediato com afastamento sem prejuízo salarial, a emissão de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) quando pertinente, e a capacitação das equipes em desescalada de conflitos. Essas propostas buscam criar um ambiente de trabalho mais seguro e oferecer suporte adequado aos profissionais agredidos.
No âmbito federal, o Senado aprovou no mês passado um projeto de lei que endurece as penas para crimes como lesão corporal, ameaça, incitação ao crime, desacato e homicídio, quando praticados contra profissionais da saúde ou da educação. Em alguns casos, a pena pode ser acrescida em até dois terços ou até dobrada. O texto, que teve origem na Câmara dos Deputados e foi alterado no Senado, retornará à Câmara para nova análise, indicando um esforço contínuo para fortalecer a proteção legal desses trabalhadores.
Consequências da Violência: Do Pronto-Socorro ao Bem-Estar Profissional
A experiência de Wagner Albino Batista, enfermeiro de 45 anos com 25 anos de atuação, a maioria na saúde pública, exemplifica o risco constante. Ele recorda um dia em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) lotada em Guarulhos, com mais de 200 pessoas na fila, quando um acompanhante se irritou com a classificação de risco de um paciente. “Ele me deu um soco no rosto e apontou a arma dizendo que estava armado”, conta Wagner, que precisou proteger a si e aos colegas.
A violência contra a enfermagem não é apenas um problema individual; ela tem repercussões sistêmicas. O medo e o estresse gerados pelas agressões contribuem para o esgotamento profissional, a síndrome de burnout e a evasão da carreira, impactando diretamente a capacidade do sistema de saúde de oferecer um atendimento de qualidade. A segurança dos profissionais é um pilar fundamental para a eficácia de qualquer sistema de saúde.
Para mais informações sobre o trabalho e as iniciativas do conselho, visite o site oficial do Coren-SP.
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