A prática de divulgar comparações de “antes e depois” de pacientes em redes sociais, comum em diversas áreas ligadas à estética, é estritamente vedada para nutricionistas pelo Conselho Federal de Nutrição (CFN). A medida, que pode parecer restritiva à primeira vista, visa proteger a população e preservar a integridade da profissão, reforçando que o cuidado nutricional transcende a mera transformação estética.
Essa proibição está ancorada no código de ética e conduta da profissão, que possui força de lei e regulamenta a atuação dos nutricionistas em todo o território nacional. A complexidade do trabalho do nutricionista, focado na promoção da saúde, prevenção de doenças e auxílio em tratamentos, não pode ser simplificada ou representada por uma imagem que, muitas vezes, não reflete a totalidade do processo de cuidado.
A complexidade do cuidado nutricional e a ética profissional
A atuação do nutricionista é multifacetada, abrangendo mais de 30 especialidades reconhecidas, como oncologia, cardiologia e nutrição esportiva. Segundo Evie Grinberg Mandelbaum, coordenadora da Comissão de Ética do CRN-3 (Conselho Regional de Nutrição 3ª Região), a prática de exibir fotos de antes e depois não consegue capturar a verdadeira essência e a complexidade do cuidado nutricional.
O foco principal da profissão é a saúde integral do indivíduo, e não apenas a alteração de sua aparência física. A regulamentação busca garantir que os profissionais mantenham um padrão ético elevado, onde a saúde e o bem-estar do paciente sejam priorizados acima de qualquer apelo visual ou comercial que possa distorcer a percepção pública sobre a nutrição.
Impacto nas expectativas e na relação paciente-profissional
A divulgação de resultados estéticos pode gerar uma série de consequências negativas. Para a nutricionista e criadora de conteúdo Monique Fonseca, a linha entre mostrar a eficácia de um método e prometer resultados semelhantes a todos os pacientes é tênue. Essa prática pode criar uma percepção de competição entre os indivíduos e, consequentemente, uma sensação de fracasso para aqueles que não atingem as mesmas mudanças estéticas visíveis e extremas.
Luís Castello, também nutricionista e criador de conteúdo, ressalta que essa exposição pode impactar negativamente a relação de confiança com o paciente e as expectativas em relação ao processo. Ele defende que o trabalho do nutricionista pode ser demonstrado de outras formas, sem comparações ou reforço de padrões estéticos muitas vezes inatingíveis. “Gosto de compartilhar conquistas relatadas pelos meus pacientes: ‘estou consumindo mais frutas’ ou ‘meus exames melhoraram’”, exemplifica, mostrando que o progresso vai muito além do visual.
Regulação e fiscalização: o papel dos conselhos
Os Conselhos de Nutrição, tanto federal quanto regionais, desempenham um papel crucial na fiscalização e na garantia da ética profissional. Evie Grinberg Mandelbaum explica que as denúncias contra profissionais são apuradas rigorosamente. Uma vez comprovadas, as infrações resultam em notificação e orientação para que o nutricionista adeque sua conduta.
Caso não haja adaptação, medidas mais formais são tomadas, como a orientação por ofício e o reforço da regulamentação profissional. O objetivo principal, segundo Evie, não é punir o profissional, mas sim proteger a população de práticas enganosas e preservar a integridade da profissão. Medidas mais drásticas são reservadas apenas para casos sérios, após esgotadas as tentativas de orientação e adequação. Vale ressaltar que dietas restritivas, por exemplo, não são proibidas, desde que haja pertinência clínica e evidência científica para sua aplicação.
Além da estética: a saúde integral como foco
A proibição das fotos de antes e depois é um reflexo do compromisso da nutrição com a saúde integral, que vai muito além da imagem corporal. Em uma sociedade cada vez mais pressionada por padrões estéticos idealizados e muitas vezes irreais, a postura dos conselhos profissionais é fundamental para desmistificar a ideia de que a nutrição se resume a emagrecimento ou ganho de massa muscular para fins puramente estéticos.
Ao focar em indicadores de saúde como exames clínicos, hábitos alimentares melhorados, bem-estar psicológico e prevenção de doenças, os nutricionistas reforçam o valor de uma abordagem holística e sustentável. Essa perspectiva contribui para combater transtornos alimentares e promover uma relação mais saudável e consciente das pessoas com seus corpos e com a alimentação.
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