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Torturas sistemáticas: ucranianos detidos na Rússia relatam abusos em prisões

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Milhares de soldados e civis ucranianos que foram ou estão detidos em centros de encarceramento na Rússia e em territórios ucranianos ocupados denunciam terem sofrido torturas sistemáticas, incluindo espancamentos, choques elétricos e violências sexuais. Os relatos, que emergem de testemunhos de ex-prisioneiros, familiares e até mesmo de ex-agentes penitenciários russos que desertaram, pintam um quadro sombrio de violações generalizadas dos direitos humanos, intensificadas desde a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022.

torturas: cenário e impactos

A gravidade da situação foi confirmada por diversas organizações de direitos humanos e pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que apontam para um padrão de abusos que remete às práticas do período soviético. Enquanto a administração penitenciária russa mantém silêncio sobre as acusações, o presidente Vladimir Putin afirmou, em 2025, que Moscou trata os prisioneiros de forma humana, uma declaração que contrasta drasticamente com os depoimentos coletados.

Relatos de violência e mortes em cativeiro

Os testemunhos são contundentes e revelam a brutalidade imposta aos detidos. Um ex-agente dos serviços penitenciários russos, identificado como Alexei (nome fictício), descreveu o caso de um jovem tenente ucraniano que, por “falar demais”, foi espancado sem piedade. Segundo Alexei, que trabalhava na unidade médica da prisão, o tenente apresentava “lesões extensas, hematomas nas nádegas e na parte posterior das coxas” e foi privado de atendimento médico adequado, vindo a falecer em outubro de 2022. Seu corpo, gangrenado, pode ter sido enterrado como indigente.

Os abusos não se limitam a espancamentos. Relatórios da OSCE, baseados em dados das autoridades ucranianas, indicam que 89% das pessoas libertadas afirmam ter sofrido maus-tratos em cativeiro, com um alarmante índice de 42% relatando violências sexuais. A privação de comunicação com o mundo exterior é outra tática comum, projetada para “fazer você acreditar que ninguém está te esperando”, como descreveu Iaroslav Rumiantsev, um ex-soldado ucraniano que sobreviveu a mais de três anos de cativeiro.

A sistemática da violência e a ocultação

A violência nas prisões russas não parece ser um fenômeno isolado, mas sim parte de um sistema organizado. Vladimir Osechkin, diretor da Gulagu.net, uma organização que documenta abusos no sistema penitenciário russo, afirma que os detidos ucranianos estão presos em uma estrutura controlada pelo poderoso serviço de segurança (FSB) e pela administração penitenciária, com a cumplicidade dos órgãos judiciais. Os abusos, frequentes desde 2014 com o início do conflito no leste da Ucrânia, multiplicaram-se exponencialmente após a invasão em larga escala.

A Promotoria ucraniana confirmou a morte de pelo menos 143 prisioneiros ucranianos, incluindo seis civis, em prisões russas nos últimos quatro anos. Em fevereiro de 2026, o presidente Volodimir Zelenski estimou que cerca de 7.000 prisioneiros de guerra ucranianos estavam em mãos russas. Além disso, 15.300 civis foram “detidos de forma ilegal”, conforme dados do escritório ucraniano de direitos humanos no início de março.

Ordens para uso de força irrestrita

A permissão para a violência foi explícita. Serguei (nome fictício), um ex-membro das forças especiais da administração penitenciária russa, revelou que, no primeiro dia da invasão em fevereiro de 2022, seu chefe instruiu sua unidade a realizar missões em prisões com ucranianos, afirmando que “as normas em vigor não se aplicariam mais”. “Em outras palavras, deu permissão para usar força física sem restrições. E ninguém seria responsabilizado”, disse Serguei, que se recusou a participar e pediu demissão em 2022, fugindo da Rússia.

Segundo a Promotoria ucraniana, a presença de prisioneiros ucranianos foi constatada em pelo menos 201 centros de detenção em 49 regiões da Rússia, incluindo o Extremo Oriente, além de 116 locais de encarceramento na Ucrânia ocupada. A dispersão dos detidos por um vasto território dificulta o monitoramento e a prestação de assistência.

A experiência de Iaroslav Rumiantsev

O ex-soldado da Marinha ucraniana, Iaroslav Rumiantsev, é um dos que vivenciaram o horror. Capturado em Mariupol em maio de 2022, após a rendição das tropas na usina de Azovstal, ele passou por quatro prisões russas antes de ser libertado em 2025. Sua jornada incluiu uma breve passagem por Olenivka, na região de Donetsk, onde uma explosão em julho de 2022 causou a morte de pelo menos 50 prisioneiros ucranianos.

Posteriormente, Rumiantsev foi transferido para o centro de detenção de Taganrog, no sudoeste da Rússia, conhecido como um dos piores centros de tortura. Ele descreve a chegada, quando, junto com cerca de 250 prisioneiros, foi forçado a atravessar um corredor de guardas que os espancavam sem piedade. Essas experiências corroboram a denúncia de um sistema de violência institucionalizada.

A situação dos prisioneiros ucranianos na Rússia é um tema de profunda preocupação internacional, levantando questões sobre crimes de guerra e a responsabilidade de Moscou. O Diário Global continuará acompanhando de perto os desdobramentos desses relatos e a busca por justiça, oferecendo aos seus leitores informações relevantes, atualizadas e contextualizadas sobre este e outros temas cruciais do cenário global.

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