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Mercado clandestino de atestados médicos e receitas avança em redes sociais

Saúde

A proliferação de serviços ilegais no ambiente digital

O ambiente virtual tornou-se palco para uma prática criminosa que coloca em risco a saúde pública e a integridade das relações trabalhistas. Anúncios que prometem a venda de atestados médicos, laudos e receitas de medicamentos de uso controlado circulam livremente em plataformas como X, WhatsApp e Telegram. Com preços iniciais na casa dos R$ 40, esses grupos oferecem documentos que, segundo os vendedores, contariam com carimbo e CRM ativo, simulando uma legitimidade que, na prática, é inexistente e ilegal.

Um levantamento realizado por Ergon Cugler, pesquisador da FGV e integrante do DesinfoPop, identificou pelo menos 31 perfis ativos no X dedicados a direcionar usuários para esses canais de venda. A estrutura desses grupos impressiona pelo nível de organização, operando com tabelas de preços detalhadas em planilhas que incluem desde anabolizantes e emagrecedores até psicotrópicos de tarja preta.

Riscos jurídicos e impactos na saúde

Especialistas alertam que a aquisição desses documentos não é apenas uma infração ética, mas um risco jurídico severo para ambas as partes. O comprador de um atestado falso, por exemplo, pode ser demitido por justa causa, além de responder criminalmente por uso de documento falso. Do ponto de vista da saúde, a compra de medicamentos sem prescrição médica expõe o paciente a perigos graves, como a automedicação inadequada e o uso de substâncias sem procedência garantida.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) reforça que a emissão de qualquer documento médico exige, obrigatoriamente, a realização de consulta e a formação de um juízo clínico. Qualquer prática que ignore esse rito configura infração ética grave. Luciana Canetto, presidente do CRF-SP, destaca que o acesso a medicamentos controlados sem o devido acompanhamento profissional compromete a segurança do paciente e desrespeita as normas sanitárias vigentes no país.

A resposta das plataformas digitais

Diante da pressão pelo combate ao comércio ilegal, as empresas de tecnologia adotam posturas distintas. O Telegram afirma que a venda de substâncias controladas e certificados fraudulentos viola seus termos de serviço, utilizando ferramentas de inteligência artificial e denúncias de usuários para remover comunidades infratoras. O WhatsApp, por sua vez, reitera que desativa contas que promovem condutas ilícitas e incentiva a denúncia direta dentro do aplicativo.

Apesar das medidas de moderação, a facilidade com que novos grupos surgem após a queda de outros demonstra a resiliência desse mercado clandestino. O uso de estratégias de marketing digital para atrair clientes, sob o pretexto de “ajudar quem não tem condições de pagar consultas”, mascara uma atividade que movimenta recursos financeiros à margem da lei e burla sistemas de controle de saúde pública.

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