Em um cenário político cada vez mais dominado pelas redes sociais, a forma como líderes e partidos se comunicam com o público tem sido objeto de intensa análise. O historiador e deputado português Rui Tavares, em sua recente reflexão, propõe uma distinção crucial entre a “economia da atenção” e a “política da motivação”, argumentando que a primeira, embora onipresente, é uma tática de curto prazo que se esgota, enquanto a segunda oferece um caminho mais sustentável para o engajamento cívico.
A discussão de Tavares ilumina um debate fundamental sobre a qualidade do discurso público e a eficácia das estratégias de comunicação em democracias contemporâneas. A capacidade de atrair olhares é o ponto de partida, mas a manutenção de um diálogo significativo exige mais do que meros estímulos passageiros.
A ascensão da economia da atenção na política
A emergência e a consolidação das redes sociais nos últimos anos transformaram a “economia da atenção” no modo dominante de entender a intersecção entre comunicação e política. Plataformas digitais, com seus formatos de textos curtos e vídeos ainda mais breves, condicionaram o cérebro humano a buscar doses constantes de pequenos estímulos. Essa dinâmica, segundo Tavares, tornou-se a métrica principal de sucesso na comunicação política, especialmente a partir de 2016, com eventos como o Brexit e a primeira eleição de Donald Trump.
Nesse ambiente, a validade ou o sentido de uma proposta política muitas vezes se tornam secundários. O que realmente importa é o número de cliques, curtidas e visualizações que ela gera. Essa lógica permitiu que até mesmo “disparates mais absurdos e erros mais trágicos” fossem justificados por métricas de engajamento, minimizando qualquer outra consideração. A habilidade de um candidato em captar e manter a atenção de milhões de pessoas passou a ser vista como o principal talento, independentemente da substância de suas ideias ou de seu comportamento.
Tática versus estratégia: o esgotamento do modelo
Rui Tavares argumenta que o uso da economia da atenção na comunicação política não constitui uma estratégia, mas sim uma tática. A diferença é crucial: táticas são de curto prazo e, sem uma estratégia abrangente, tendem a se esgotar. Após quase uma década de predomínio desse modelo, observa-se um “retorno decrescente” para os políticos que dependem exclusivamente dele. A necessidade de ser cada vez mais “grotesco” para captar a atenção acaba por gerar menos engajamento, pois os seres humanos, por natureza, se entediam.
A atenção do público, além de tudo, está mais fragmentada do que nunca. Sua duração é menor, sua retenção é mais difícil e sua compartilhabilidade em contextos interpessoais fora dos aplicativos é limitada. O resultado é um cenário onde a maior parte do conteúdo se torna “ruído de fundo”, com poucos memes ou mensagens se destacando de forma memorável.
A proposta da política da motivação
Diante desse panorama, Tavares sugere que há uma alternativa, que sempre esteve “debaixo do nosso nariz”. Ele defende que políticos democratas e progressistas precisam de um tipo diferente de atenção: uma atenção mais prolongada, construtiva e com maior retorno, que ele chama de “motivação”. Essa motivação, por sua vez, só pode ser alcançada por meio de “propostas boas e que façam sentido”.
A ideia é que, ao invés de se perderem na busca incessante por estímulos efêmeros, os políticos deveriam focar em construir argumentos sólidos e oferecer soluções concretas para os desafios da sociedade. Deixar que o público se distraia com memes é uma possibilidade, desde que haja motivos consistentes para que retornem e se engajem com propostas significativas. No longo prazo, a “política da motivação” tem o potencial de superar a “economia da atenção”, oferecendo um caminho mais robusto para a participação cívica e a construção de um futuro mais engajado e informado.
Para aprofundar a compreensão sobre os impactos das redes sociais na política, clique aqui para acessar um estudo relevante sobre o tema.
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