26.fev.26/Folhapress

Hipocondria: quando a precaução com remédios na bolsa se torna um alerta

Saúde

Em um mundo onde a agilidade é valorizada, ter um medicamento à mão para dores de cabeça súbitas, alergias inesperadas ou cólicas pode parecer uma medida de bom senso. No entanto, a linha entre a precaução legítima e a preocupação excessiva com a saúde, que pode indicar um quadro de hipocondria, é tênue e merece atenção. Quando bolsas, mochilas e até carros se transformam em verdadeiras farmácias ambulantes, o hábito pode sinalizar riscos tanto para a saúde física quanto para a mental.

O cardiologista Murilo Meneses Nunes, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, esclarece que carregar um ou dois medicamentos essenciais, como um anti-histamínico para quem sofre de alergias graves ou um broncodilatador para asmáticos, é uma prevenção legítima. O sinal de alerta, contudo, surge quando a pessoa passa a carregar uma vasta gama de medicamentos para sintomas hipotéticos, sentindo-se insegura ao sair de casa sem eles. Analgésicos, antiácidos, anti-inflamatórios e remédios para dormir, entre outros, passam a ser vistos como um seguro contra qualquer mal-estar futuro.

A linha tênue entre cuidado e preocupação excessiva

O transtorno de ansiedade de doença, popularmente conhecido como hipocondria, manifesta-se quando indivíduos interpretam sensações corporais normais como sinais de enfermidades graves. Essa condição leva à busca incessante por confirmação em consultas médicas, exames, com familiares ou por meio de pesquisas na internet. Uma dor de cabeça leve pode ser percebida como algo alarmante, e um desconforto digestivo passageiro pode gerar um medo desproporcional de uma doença séria, resultando em um estado permanente de vigilância.

Segundo Nunes, a preocupação com a saúde assume um lugar central na vida da pessoa, impactando negativamente o trabalho, os relacionamentos e as atividades de lazer. Embora possa surgir em qualquer indivíduo, o transtorno é mais comum em quem possui histórico de ansiedade ou depressão, em pessoas que vivenciaram experiências traumáticas relacionadas a doenças, ou naquelas com uma forte necessidade de controle e traços perfeccionistas. A meia-idade é outro período de maior incidência, quando as preocupações com o envelhecimento e o surgimento das primeiras doenças crônicas tendem a aumentar.

Os perigos ocultos da automedicação e do armazenamento inadequado

Além de alimentar a preocupação excessiva, o uso frequente de medicamentos sem orientação profissional acarreta sérias consequências físicas. Anti-inflamatórios não esteroidais, como ibuprofeno e diclofenaco, podem causar lesões gástricas, sangramento gastrointestinal, danos renais e aumentar o risco cardiovascular se usados com frequência. Mesmo o paracetamol, muitas vezes considerado seguro, pode provocar toxicidade hepática grave em doses acima das recomendadas.

Medicamentos para dormir vendidos sem prescrição, por sua vez, podem levar à dependência, sonolência diurna e aumentar o risco de quedas em idosos. “A facilidade de acesso cria a falsa impressão de que esses medicamentos são inofensivos”, alerta o médico do Einstein. Por isso, mesmo os produtos isentos de prescrição exigem orientação profissional, e o farmacêutico pode desempenhar um papel crucial para garantir um uso seguro e responsável.

A automedicação recorrente também pode atrasar diagnósticos importantes. Uma dor constantemente tratada com analgésicos ou uma azia controlada com antiácidos pode mascarar doenças que demandam avaliação médica. Outro risco, frequentemente subestimado, são as interações medicamentosas, onde um remédio pode interferir na ação de outro, potencializando ou anulando seus efeitos. Para mais informações sobre os riscos da automedicação, consulte fontes confiáveis como a Fiocruz.

Buscando equilíbrio e ajuda profissional

Em termos de saúde mental, é fundamental buscar avaliação médica ou psicológica quando a preocupação com doenças causa sofrimento significativo ou interfere nas atividades diárias. Sinais de alerta incluem ansiedade intensa ao ficar sem medicamentos, pesquisas compulsivas sobre sintomas, consultas frequentes para o mesmo problema, dificuldade em aceitar resultados normais de exames e o uso recorrente de remédios sem orientação.

Terapias, especialmente a cognitivo-comportamental, são eficazes para reduzir o medo constante de adoecer e ajudar a construir uma relação mais equilibrada com o próprio corpo. “Quanto mais cedo o tratamento, melhor o prognóstico. É importante entender que essa preocupação não é ‘frescura’, é um transtorno real que causa sofrimento genuíno, mas que responde bem ao tratamento adequado”, afirma Murilo Nunes.

Além do uso, a forma de armazenamento dos medicamentos também é crucial. Deixar remédios permanentemente na bolsa, no porta-luvas ou no console do carro é um hábito comum, mas perigoso. Calor, luz e umidade podem alterar a estabilidade química dos fármacos, levando à degradação de comprimidos, cápsulas e líquidos, o que reduz sua eficácia e, em alguns casos, compromete sua segurança. Em um veículo estacionado sob o sol, por exemplo, a temperatura pode facilmente ultrapassar os 60°C.

O farmacêutico Alexandre Bechara, doutor em farmacologia pela Unifesp e coordenador do Grupo Técnico de Trabalho em Educação Farmacêutica do CRF-SP, explica que a embalagem original, como o blister e a cartela, é fundamental para identificar e proteger o princípio ativo contra agentes externos. Guardar comprimidos soltos aumenta o risco de erros de identificação e dificulta o controle da validade, além de expô-los a contaminação.

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