Mobilidade na velhice: perda de 15% da força muscular já é alerta, aponta estudo

Mobilidade na velhice: perda de 15% da força muscular já é alerta, aponta estudo

Saúde

Um novo estudo, fruto da colaboração entre pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no Brasil e da University College London no Reino Unido, revelou um indicador crucial para a saúde e autonomia de idosos: a perda de apenas 15% da força muscular já é um sinal de alerta para a mobilidade na velhice. A pesquisa, que acompanhou milhares de indivíduos por mais de uma década, sugere que monitorar a evolução da força ao longo do tempo é mais eficaz do que apenas observar valores absolutos.

A descoberta, publicada em março na revista GeroScience, desafia as abordagens tradicionais de diagnóstico de fraqueza muscular, que se baseiam em limites fixos de força. Segundo os pesquisadores, mesmo idosos que ainda apresentam níveis de força considerados normais, mas que experimentaram uma redução de 15% em sua capacidade, estão em risco iminente de desenvolver lentidão na caminhada – um fator que eleva significativamente as chances de quedas, hospitalizações e perda de independência.

O risco silencioso da perda de força muscular

O trabalho, apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), analisou dados de 4.541 pessoas com 60 anos ou mais, participantes do Elsa (Estudo Longitudinal Inglês do Envelhecimento), um dos maiores levantamentos sobre envelhecimento no mundo. Ao longo de 12 anos, os cientistas monitoraram a força do aperto de mão (preensão manual) e a velocidade de marcha dos voluntários.

Tradicionalmente, a fraqueza muscular é diagnosticada quando a força do aperto de mão atinge valores abaixo de um limite preestabelecido, como 27 kg para homens e 16 kg para mulheres. No entanto, o professor Tiago da Silva Alexandre, do Departamento de Gerontologia da UFSCar e coordenador do estudo, explica que a pesquisa trouxe uma nova perspectiva. “Observamos que, mesmo os indivíduos que se mantiveram acima do limite mínimo, com a perda de 15% da força, entraram num processo que culminou na lentidão da caminhada”, afirma.

Indicadores e impactos na qualidade de vida

A força do aperto de mão é um “termômetro” reconhecido para a saúde muscular geral, pois a perda de massa muscular afeta o organismo de forma generalizada. Um aperto de mão mais fraco indica que outros músculos essenciais, como os das pernas e do tronco, também estão perdendo vigor. Esse teste rápido e acessível oferece informações valiosas sobre a capacidade física global de uma pessoa.

A lentidão ao caminhar é um alerta clínico de grande relevância, pois está associada a um risco aumentado de quedas, que podem levar a fraturas e outras complicações, além de hospitalizações e a consequente perda de autonomia para realizar atividades diárias. Os resultados do estudo detalham que idosos que perderam entre 15% e 20% da força muscular ao longo dos 12 anos apresentaram um declínio de 0,007 metro por segundo por ano na velocidade da caminhada, totalizando uma perda de 0,189 metro por segundo no período.

Para contextualizar, uma velocidade de caminhada abaixo de 0,8 metro por segundo já é considerada lenta e um sinal de alerta para a saúde do idoso. A perda observada no estudo representa cerca de um quarto desse valor de referência, indicando um impacto significativo na mobilidade. Mesmo aqueles que perderam mais de 20% da força tiveram uma redução expressiva, de 0,144 m/s no acumulado de 12 anos, ambas as perdas sendo superiores às de participantes com força estável.

A importância do monitoramento individualizado

A força muscular é um dos pilares fundamentais da mobilidade, complementada por fatores como equilíbrio, flexibilidade, ausência de dor e capacidade cardiorrespiratória. Sem uma reserva mínima de força, o corpo encontra dificuldades para sustentar movimentos básicos, como levantar-se, caminhar ou manter a estabilidade em pé. O estudo reforça que não basta apenas estar dentro de um valor padrão; é essencial acompanhar como essa força se altera ao longo do tempo.

Os autores defendem que a perda de mais de 15% da força pode e deve funcionar como um ponto de corte clínico para identificar precocemente idosos em risco de piora da mobilidade. “Esse monitoramento na prática clínica é importante, pois quanto mais cedo o risco de lentidão de caminhada for identificado, mais fácil será reverter esse quadro a partir da prática de musculação e alimentação adequada”, destaca Alexandre.

O envelhecimento é um processo natural, mas a atenção ao ritmo das mudanças é crucial. Alterações muito rápidas na força, peso ou comportamento devem ser investigadas imediatamente para identificar e tratar as causas subjacentes, garantindo um envelhecimento mais saudável e com maior qualidade de vida. Para aprofundar-se nos estudos sobre envelhecimento e saúde, você pode consultar o site da Fapesp, uma das fontes de apoio a esta pesquisa.

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