MPT cobra R$ 321 milhões da Uber por repasse de riscos e possível servidão de motoristas

MPT cobra R$ 321 milhões da Uber por repasse de riscos e possível servidão de motoristas

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O Ministério Público do Trabalho (MPT) ingressou com uma ação civil pública contra a Uber do Brasil, questionando a legalidade do programa conhecido como “Passe para Motoristas”. O órgão solicita à Justiça a suspensão imediata da modalidade, que altera a forma como a plataforma cobra pelos seus serviços de intermediação, e pede uma indenização por danos morais coletivos fixada em R$ 321 milhões.

A lógica do risco e a acusação de servidão por dívida

A controvérsia central reside na mudança da estrutura de remuneração. No modelo tradicional, a empresa retém um percentual sobre cada corrida realizada. Com o “Passe”, o motorista paga antecipadamente para utilizar o aplicativo, seja por janelas de tempo — 24 ou 72 horas — ou por faixas de faturamento. Para o MPT, essa alteração transfere integralmente o risco da atividade econômica para o trabalhador.

O procurador Luiz Antonio Nascimento Fernandes, responsável pelo caso que tramita na 9ª Vara do Trabalho de Salvador (BA), argumenta que o modelo pode configurar uma forma de servidão por dívida. Segundo a denúncia, o sistema cria uma dependência econômica na qual o motorista, ao investir antecipadamente, sente-se compelido a trabalhar exclusivamente para a plataforma para recuperar o valor gasto, o que, na visão do órgão, descaracteriza a autonomia típica do trabalho autônomo.

O MPT aponta ainda que o contrato é redigido de forma unilateral pela empresa, permitindo alterações nas regras ou a desativação do acesso sem a garantia de reembolso. A ação pede, além da indenização milionária, a devolução integral dos valores já pagos pelos motoristas que aderiram ao programa, montante que pode superar R$ 1 mil mensais por trabalhador.

Repercussão e defesa da plataforma

Lançado em maio, o programa já alcançou 29 municípios brasileiros, com planos de expansão nacional. A Uber, por meio de nota oficial, refutou veementemente as conclusões do Ministério Público. A empresa sustenta que os procuradores partem de “concepções equivocadas” e posições ideológicas sobre a natureza da relação entre o aplicativo e os motoristas parceiros.

A companhia defende que o “Passe” é apenas uma alternativa comercial, desenhada para oferecer previsibilidade de custos aos parceiros. Segundo a Uber, o projeto segue em fase de testes para avaliar a viabilidade e a aceitação em diferentes contextos regionais. A empresa afirmou que prestará todos os esclarecimentos necessários à Justiça dentro do prazo legal, mantendo sua posição de que o modelo está em conformidade com as operações de intermediação tecnológica.

Contexto jurídico e mercado de trabalho

O embate reflete a tensão crescente entre as empresas de economia de plataforma e os órgãos de fiscalização trabalhista no Brasil. A discussão sobre a natureza do vínculo e a proteção social dos motoristas de aplicativo tem sido pauta constante no Judiciário, envolvendo desde questões previdenciárias até a regulação do trabalho digital.

A decisão da 9ª Vara do Trabalho de Salvador será um marco importante para definir os limites da autonomia contratual em modelos de negócio baseados em algoritmos. Enquanto o processo segue seu curso, a expectativa é de que o debate sobre a precarização ou a flexibilização do trabalho ganhe novos contornos, impactando diretamente milhões de brasileiros que dependem da plataforma para compor sua renda mensal.

O Diário Global segue acompanhando os desdobramentos desta ação judicial e os impactos nas relações de trabalho no país. Mantenha-se informado com nossa cobertura completa sobre economia, justiça e tecnologia, sempre com o compromisso de trazer os fatos que moldam o cenário nacional e internacional.

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