Uma pesquisa inovadora conduzida por cientistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP) revelou um avanço promissor no tratamento do câncer colorretal. O estudo aponta que um composto natural derivado do alho, o dissulfeto de dialila, pode aumentar significativamente a eficácia de um dos quimioterápicos mais utilizados contra essa doença, o 5-fluorouracilo.
A descoberta sugere uma nova abordagem terapêutica que combina a medicina convencional com recursos naturais, facilmente acessíveis e de baixo custo. Os resultados, que foram financiados pela Fapesp, foram detalhados em um artigo publicado na renomada revista Nutrients, abrindo caminho para o desenvolvimento de tratamentos adjuvantes mais potentes e com menos efeitos colaterais.
O Potencial do Dissulfeto de Dialila no Combate ao Câncer
O dissulfeto de dialila é um produto natural biologicamente ativo, classificado como nutracêutico, extraído do alho. Este composto já era conhecido por suas propriedades antitumorais em estudos anteriores, que demonstraram sua capacidade de inibir o crescimento e a proliferação celular de tumores.
Entre os mecanismos de ação do dissulfeto de dialila estão a regulação do metabolismo carcinogênico, a estimulação da apoptose (morte celular programada, essencial para a eliminação de células danificadas ou cancerosas) e a prevenção da angiogênese. A angiogênese é um processo crucial para o desenvolvimento do câncer, pois permite que o tumor crie sua própria rede vascular para obter nutrientes e crescer.
Além disso, o composto tem mostrado potencial na redução da invasão e migração de células cancerosas, bem como na atenuação de efeitos colaterais associados a tratamentos mais agressivos. Sua natureza de baixo custo, fácil disponibilidade e boa tolerância pelo organismo o tornam um candidato ideal para terapias complementares.
A Sinergia Contra o Câncer Colorretal: Detalhes do Estudo
O câncer colorretal representa uma grave preocupação global, sendo o segundo tipo de câncer mais diagnosticado e a segunda principal causa de morte relacionada à doença em todo o mundo. O 5-fluorouracilo é um quimioterápico amplamente empregado no tratamento desse tipo de tumor, com comprovada capacidade de melhorar a sobrevida dos pacientes, inclusive em casos metastáticos, quando a doença já se espalhou pelo corpo.
No projeto de mestrado da pós-graduanda Estéfani Maria Treviso, sob a orientação da professora Lusânia Maria Greggi Antunes, pesquisadores da FCFRP-USP investigaram a interação entre o dissulfeto de dialila e o 5-fluorouracilo. O estudo avaliou o impacto de diferentes tratamentos em células de câncer colorretal (tipos Caco-2 e HT-29) e, para comparação, em células saudáveis da veia umbilical humana.
As células foram expostas por 24 horas ao quimioterápico e ao composto do alho, tanto de forma isolada quanto combinada. A análise da citotoxicidade —a capacidade das substâncias de destruir células tumorais preservando as saudáveis— revelou que a combinação foi superior. “A conclusão foi que a sinergia entre o extrato de alho e o quimioterápico levou a uma ação mais eficaz contra as células tumorais utilizadas no estudo, mostrando que o uso do nutracêutico é promissor em tratamentos adjuvantes na quimioterapia”, afirmou Lusânia Maria Greggi Antunes.
Precedentes e Novas Perspectivas: Ação contra o Câncer de Fígado
A equipe da USP já possui um histórico de pesquisa com o dissulfeto de dialila. Em um trabalho anterior, durante o doutorado de Ana Rita Thomazela Machado, o composto foi testado em modelos celulares de câncer de fígado, que é o sétimo tipo mais comum e a quinta causa de morte por câncer globalmente. Os resultados dessa pesquisa foram publicados no periódico Pharmaceutics.
Nesse estudo, o dissulfeto de dialila foi avaliado em combinação com o sorafenibe, um quimioterápico que atua bloqueando vasos sanguíneos que nutrem o tumor e sinalizando para que as células cancerosas parem de crescer. A ação conjunta demonstrou efeitos sinérgicos contra células de carcinoma hepatocelular, uma linhagem de câncer de fígado conhecida por sua alta taxa de proliferação e resistência.
“O composto foi capaz de induzir a morte dessas células, inibir sua migração e autofagia, além de alterar a expressão de suas proteínas”, explicou a professora Antunes sobre os achados. A associação de quimioterápicos tradicionais a compostos bioativos de plantas, como o dissulfeto de dialila, é vista pelos pesquisadores como uma estratégia promissora para o desenvolvimento de novos protocolos clínicos, especialmente em doenças com opções de tratamento limitadas.
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