A rotina de gestantes como Aldeniza Silva e Silva, moradora da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, em Carauari, no Amazonas, sempre foi marcada pela incerteza e pelo cansaço. Grávida de sete meses, ela enfrentava jornadas exaustivas de até três dias em embarcações precárias, as chamadas rabetas, para realizar o pré-natal na zona urbana. A ausência de rodovias na região amazônica impõe aos ribeirinhos a dependência exclusiva dos rios, transformando uma simples consulta médica em uma logística complexa e dispendiosa.
Esse cenário, que afeta milhares de pessoas em um município de 28 mil habitantes localizado a mais de 1,6 mil quilômetros da capital, Manaus, começou a mudar com a inauguração de dois novos pontos de atendimento à saúde nas bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), nas regiões de Campina e Bauana. A iniciativa, que integra o projeto SUS na Floresta, busca descentralizar o acesso à medicina básica, aproximando o atendimento das comunidades rurais.
Tecnologia e parceria para fortalecer o SUS
A estrutura das novas unidades foi desenhada para superar as barreiras geográficas da Amazônia. Cada posto conta com consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico e conexão de internet para viabilizar a telessaúde. O modelo não pretende substituir o sistema público, mas sim atuar como um braço de apoio, integrando-se plenamente ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O projeto é fruto de uma articulação entre a FAS, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umame, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). A estratégia conta ainda com o suporte técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas. Segundo Guilherme Sylos, diretor do IDIS, o objetivo central é reforçar a Estratégia Saúde da Família, respeitando as particularidades culturais e a sazonalidade dos rios amazônicos.
Impacto imediato na rotina das comunidades
A repercussão da abertura dos postos foi imediata entre os moradores. Na comunidade de São Francisco, a notícia de que o atendimento médico estaria mais próximo trouxe alívio para quem, como a ribeirinha Cecilia Bispo de Lima, já sofreu com a falta de assistência em momentos de crise de saúde. A proximidade física reduz drasticamente a necessidade de viagens longas e onerosas, que muitas vezes custam centenas de reais em combustível.
Os dados da primeira semana de operação confirmam a eficácia da medida. Em Campina, cinco chamadas para as chamadas “ambulanchas” — lanchas de resgate da prefeitura — foram evitadas. Casos como o do jovem Thiago Freitas Andrade, que sofreu um ferimento grave no pé, foram resolvidos localmente. O atendimento rápido evitou complicações maiores, permitindo que o paciente recebesse medicação e orientações de repouso sem precisar se deslocar até a sede do município.
Prevenção e continuidade do cuidado
Além dos atendimentos de urgência, as novas unidades são fundamentais para o acompanhamento contínuo, como o pré-natal de gestantes e o controle de doenças crônicas, a exemplo da hipertensão. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra destaca que a unidade já atende desde casos de ferimentos graves até quadros gripais recorrentes em crianças. A presença constante de profissionais de saúde no território permite um monitoramento mais eficaz e uma resposta mais ágil às demandas da população local.
O projeto, que deve beneficiar cerca de 4,7 mil pessoas em 56 comunidades, representa um avanço significativo na garantia do direito à saúde em áreas remotas. Para acompanhar os desdobramentos desta iniciativa e outras reportagens sobre o desenvolvimento regional e políticas públicas, continue lendo o Diário Global. Nosso compromisso é levar até você informações apuradas, relevantes e que impactam diretamente a realidade de diversas regiões do país.
Para mais detalhes sobre a atuação do projeto, consulte a fonte oficial: Agência Brasil.
