O cenário digital, frequentemente saturado por narrativas de conexão e vida social intensa, testemunha a ascensão de um fenômeno paradoxal: as “influenciadoras da solidão”. Em um movimento que desafia convenções, um número crescente de criadoras de conteúdo está utilizando plataformas como TikTok e Instagram para compartilhar suas rotinas de vida solitária, sem filhos ou amigos próximos, transformando o que antes era um tabu em um estilo de vida visível e debatido. Longe de pregar o isolamento compulsório, essas vozes digitais buscam ressignificar a solidão, apresentando-a como uma escolha consciente que prioriza a paz interior e o autocuidado.
A solidão em tela: a ascensão das influenciadoras digitais
A visibilidade dessas narrativas ganhou força com vídeos que detalham a rotina de mulheres que vivem sozinhas. Um exemplo marcante é o de Lana Isa, uma gerente de vendas de software na casa dos 20 anos, residente em Toronto, no Canadá. Um de seus vídeos, que acumula milhões de visualizações no TikTok, mostra uma sexta-feira à noite comum: ela volta para casa, prepara uma pizza congelada e se acomoda no sofá para comer em frente à TV, em uma sequência que ela descreve como a vida de uma “garota solteira, sem filhos, sem amigos e que mora sozinha”.
Lana Isa, com quase 400 mil seguidores em suas redes, documenta não apenas suas noites de autocuidado, mas também passeios a restaurantes, sessões de leitura à beira do lago e até percalços como ficar trancada fora de casa. Sua abordagem sincera sobre o aspecto “sem amigos” de sua vida não é uma mera estratégia de conteúdo, mas a “realidade” que ela enfrentou por anos. Após múltiplas mudanças de escola, o isolamento da pandemia de COVID-19 durante a faculdade e uma mudança de cidade após um desapontamento amoroso, Isa se viu adaptando-se a uma vida sem um círculo social próximo.
Mais que um slogan: a realidade por trás da escolha
A decisão de Lana de compartilhar sua experiência de solidão nas redes sociais revelou uma comunidade inesperada. Seus seguidores no TikTok saltaram de cerca de 2 mil para mais de 175 mil em apenas oito meses, impulsionados por pessoas que se identificaram com sua honestidade. “As pessoas não falam muito sobre não ter amigos… Acho que ainda é algo que as pessoas consideram constrangedor ou um pouco tabu”, afirma Isa, destacando a importância de “se sentir vista” por outros que compartilham sentimentos semelhantes.
Essa identificação massiva nos comentários dos vídeos de Isa e de outras influenciadoras da solidão demonstra que a experiência de viver sozinho ou sem um grande círculo de amigos é mais comum do que se imagina. As narrativas dessas mulheres mostram que a vida solitária não se resume a tristeza, mas pode incluir encontros românticos solo, viagens espontâneas e a superação da timidez em eventos sociais.
Desmistificando o isolamento: a perspectiva introvertida
Contudo, a popularidade da tendência gerou também reações negativas. As influenciadoras foram rotuladas como “mulheres tristes, solitárias, sem filhos e em crise”, e acusadas de romantizar o isolamento ou de promover um “derrotismo complacente”. Essa crítica, no entanto, é rebatida por criadoras como Devon Noehring, uma influenciadora em tempo integral de Phoenix, Arizona, que se identifica como introvertida. Para ela, ver seus fins de semana de tranquilidade em casa, cozinhando e relaxando com seu cachorro, serem reduzidos a um sintoma de solidão feminina é “frustrante”.
“É exatamente o oposto da intenção dos nossos vídeos”, explica Noehring. “Eu simplesmente detesto o estigma de que estar sozinho é sinônimo de solidão.” Apesar de ter amigos próximos, Devon sempre sentiu vergonha de ser vista como quieta e com ansiedade social. Somente ao compartilhar suas inseguranças online, ela encontrou um grupo de introvertidos que se identificavam com suas dificuldades. Para ela, estar sozinha é um momento de recarga e autoconhecimento. “É quando me sinto mais livre e mais eu mesma —quando estou sozinha”, diz, defendendo que a independência e a capacidade de fazer coisas por conta própria devem ser celebradas.
O debate entre autonomia e necessidade de conexão
A discussão em torno das influenciadoras da solidão levanta questões importantes sobre a saúde mental e as necessidades sociais humanas. Pesquisadores da área da saúde têm trabalhado para “desestigmatizar a solidão”, fazendo uma distinção crucial entre a solidão crônica imposta por circunstâncias e a solidão escolhida, onde há autonomia para decidir viver e passar tempo sozinho. A professora Melody Ding, epidemiologista da Universidade de Sydney que pesquisa conexão social e solidão, destaca que “todo mundo se sente sozinho em algum momento, mas algumas pessoas não se sentem bem em admitir isso”. Essa relutância pode criar uma expectativa irreal de felicidade social constante.
No entanto, Ding alerta que, embora a solidão possa parecer “muito atraente” através das lentes dos influenciadores, os seres humanos são, por natureza, seres sociais e necessitam de conexão. Ficar preso em um ciclo de isolamento intenso pode ser prejudicial ao bem-estar mental e físico. “Somos uma espécie social”, reitera a epidemiologista, enfatizando que “sobrevivemos melhor em companhia, com pessoas ao nosso redor”. Ela reconhece a variação das necessidades sociais ao longo da vida, mas expressa a esperança de que aqueles que perderam relacionamentos possam “desvalorizar” o aspecto da solidão e forjar novos laços positivos. A importância de ter pessoas em nossas vidas e de que esses relacionamentos sejam nutritivos é fundamental para a saúde humana, conforme estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre bem-estar mental: https://www.who.int/pt/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-strengthening-our-response.
As influenciadoras, por sua vez, afirmam que a solidão não define suas vidas permanentemente, nem aspiram a permanecer sem amigos. Seus vídeos são um convite à reflexão sobre a diversidade das experiências humanas e a validade de diferentes estilos de vida em um mundo cada vez mais conectado, mas também propenso ao isolamento.
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