A dúvida é comum e perene: é preciso estar profundamente apaixonado ou amando para dar o próximo passo e assumir um relacionamento? Em um mundo onde as narrativas românticas frequentemente idealizam o amor à primeira vista, a realidade das relações humanas se mostra mais complexa e, para muitos, um terreno de incertezas. No entanto, psicólogas especializadas na dinâmica de casais trazem uma perspectiva esclarecedora: o amor, em sua forma mais profunda e duradoura, não é um ponto de partida, mas sim uma construção que se desenvolve ao longo do tempo.
Essa percepção desafia a ideia de que a certeza absoluta sobre os sentimentos é um pré-requisito para o compromisso. Pelo contrário, a disposição para se arriscar e permitir que o vínculo amadureça é apontada como um fator crucial. A vida a dois, assim como a trajetória profissional, demanda atenção, investimento e a coragem de enfrentar o desconhecido, sem o medo paralisante da frustração.
A Construção do Amor e o Início das Relações
Para especialistas como Marta Carmo, psicóloga e mestre em psicologia do desenvolvimento com ênfase em casal e família, a noção de que o amor surge instantaneamente é um equívoco. “Eu considero que ninguém começa amando. Você acabou de conhecer a pessoa. O que existe, inicialmente, é paixão ou atração sexual. O amor é construído no decorrer da relação”, explica. Essa distinção é fundamental para compreender a natureza progressiva dos sentimentos e a importância de não basear as expectativas em ideais inatingíveis.
A paixão, com sua intensidade e euforia, pode ser o catalisador inicial, mas é o investimento mútuo, a superação de desafios e a descoberta das afinidades e diferenças que solidificam o amor. A ideia romântica de um “amor à primeira vista” pode, paradoxalmente, criar relacionamentos frágeis, pautados em uma idealização que não resiste às nuances da vida real. Relações verdadeiras e duradouras, segundo Carmo, nascem e se fortalecem nas adversidades, enquanto a mera afinidade não é suficiente para sustentar um namoro ou um casamento.
O Exemplo de Andrea e Luiz: Um “Test Drive” Inesperado
A história da advogada Andrea Lopes, 52, e do economista Luiz Fernando Figueiredo, 62, ex-presidente do Banco Central, ilustra bem essa dinâmica. O casal se conheceu de forma contemporânea, pelo Facebook, em janeiro de 2021. Luiz, interessado, enviou uma mensagem a Andrea, e a conversa fluiu para um café. Desde o primeiro encontro, a transparência foi a tônica.
“Resolvi falar logo quem eu sou, que eu tinha um monte de filhos, que eu já tinha sido casado três vezes. Abri o jogo para ela ver se me achava legal ou se me descartava”, conta Luiz. A honestidade de Luiz cativou Andrea, e a conexão entre eles foi imediata e profunda. Em um período de restrições devido à pandemia de Covid-19, com Luiz tendo sido internado no ano anterior e precisando evitar riscos, o casal tomou uma decisão ousada: passaram a quarentena juntos em uma casa de campo, mesmo se conhecendo há pouco tempo.
Andrea descreve a experiência como um “belo ‘test drive’ logo no começo, acordando, dormindo, ficando o dia inteiro junto, principalmente por causa do contexto daquela época”. A disposição de ambos em “se jogar” no relacionamento, sem medo da incerteza, foi o que permitiu que a relação florescesse e se consolidasse, provando que a coragem de arriscar pode ser mais valiosa do que a certeza inicial.
Desafios e a Realidade dos Vínculos Duradouros
A psicanalista Fabiana Ratti, mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, corrobora a visão de que os relacionamentos são processos contínuos de crescimento e amadurecimento. À medida que as pessoas evoluem, assumem novas responsabilidades, parcerias e enfrentam cobranças, o mesmo ocorre com seus vínculos afetivos. A idealização de um amor perfeito e instantâneo pode levar à desilusão quando a realidade da convivência e dos desafios se impõe.
A sociedade moderna, muitas vezes, pressiona por um ideal de relacionamento que ignora a complexidade humana. A busca incessante por uma “alma gêmea” ou um “par perfeito” pode impedir que as pessoas se abram para a construção gradual de um amor autêntico. É na capacidade de lidar com as diferenças, de negociar e de apoiar um ao outro nas dificuldades que a verdadeira força de um vínculo se revela, transformando a atração inicial em um amor sólido e resiliente.
A Coragem de se Arriscar e o Investimento Pessoal
O ponto central levantado pelas especialistas é a necessidade de permitir-se a vulnerabilidade e a incerteza. Abrir-se para um novo relacionamento é um ato de coragem, que exige um investimento emocional e a disposição de aceitar que o futuro não está escrito. O medo de se frustrar, de se machucar, é um obstáculo comum, mas superá-lo é essencial para aprofundar as conexões humanas.
Assim como em qualquer empreendimento significativo na vida, um relacionamento exige dedicação e trabalho. Não basta apenas a atração; é preciso nutrir o vínculo com comunicação, respeito, empatia e, acima de tudo, a vontade de crescer juntos. A história de Andrea e Luiz é um testemunho de que, mesmo em circunstâncias atípicas, a decisão consciente de dar uma chance ao outro e ao próprio processo de construção do amor pode levar a uma parceria feliz e duradoura. Para mais informações sobre psicologia e relacionamentos, consulte artigos especializados sobre o tema.
Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre temas que impactam a sociedade, a cultura e o seu dia a dia, mantenha-se conectado ao Diário Global. Nosso compromisso é oferecer informação relevante, atual e contextualizada, abordando uma vasta gama de assuntos com a credibilidade e a profundidade que você merece.
