O debate sobre como erradicar o antissemitismo ganha novas perspectivas com a análise de Stephen Bush, editor e colunista do Financial Times. Em um artigo de opinião, Bush questiona a eficácia das abordagens atuais e propõe uma reflexão profunda sobre as raízes desse ódio milenar. Para ele, a chave para derrotar o antissemitismo reside em compreender sua verdadeira natureza como uma forma de racismo e em adotar uma estratégia de “toda a sociedade” que confronte essa premissa fundamental.
A discussão se intensifica em um cenário global onde manifestações de preconceito e intolerância parecem ressurgir, exigindo uma compreensão mais apurada de suas causas e mecanismos. Bush argumenta que atribuir o antissemitismo a eventos geopolíticos contemporâneos, como as ações de Israel no Oriente Médio, é um equívoco que desvia o foco da verdadeira essência do problema, que transcende questões políticas e se enraíza em preconceitos raciais históricos.
A natureza do ódio: desmistificando as causas do antissemitismo
Stephen Bush é categórico ao refutar a ideia de que o antissemitismo moderno é uma mera reação às políticas de Israel. Ele aponta que o ódio antijudaico possui uma história que se estende por mais de mil anos, muito anterior à fundação do Estado de Israel, que completa 78 anos neste mês. Para o colunista, quem recorre à violência contra judeus em resposta a ações de um Estado está, na verdade, seguindo uma lógica racista, punindo um grupo de pessoas por atos atribuídos a outros.
Essa distinção é crucial para Bush, que compara a situação a uma oposição às tarifas de Donald Trump ou às ações no Oriente Médio sem, contudo, atacar turistas americanos. A questão central, portanto, não é o que os judeus fazem, mas sim por que o ódio étnico exerce um apelo tão duradouro e por que indivíduos encontram prazer no racismo. O autor enfatiza o uso deliberado da palavra “racismo”, pois é isso que o antissemitismo representa, mesmo quando se disfarça sob vestes religiosas ou geopolíticas.
O antissemitismo como racismo: uma invenção medieval
Para aprofundar a compreensão do antissemitismo, Bush recorre ao trabalho do historiador Ivan Marcus, autor de “How The West Became Antisemitic”. Marcus revela que a figura do “judeu como inimigo interno” é uma invenção medieval. Naquela época, cristãos chegaram a afirmar que nem mesmo o batismo poderia transformar judeus em algo diferente de judeus, uma ideia que contradizia a própria teologia cristã e exigiu a criação de “evidências” para sustentá-la.
Essa invenção servia a um propósito, que o sociólogo W.E.B. Du Bois explorou com o conceito de “salário psicológico”. Ao analisar por que americanos brancos da classe trabalhadora no Sul dos EUA votavam em políticas que os empobreceriam para manter a segregação racial, Du Bois observou que, ao declarar outros como “negros” e, portanto, fora do escopo da branquitude, mesmo aqueles com poucas conquistas pessoais ganhavam autoestima. De forma similar, o racismo antijudaico oferece um “salário psicológico”, permitindo que as pessoas se declarem membros de uma raça ou religião superior, ou que se sintam mais inteligentes ao acreditar em conspirações e segredos ocultos.
Estratégias eficazes contra o preconceito
A história, segundo Stephen Bush, é fundamental para entender como combater o racismo. Ele argumenta que a sorte dos judeus ao longo do tempo não esteve ligada às suas ações, à existência de um Estado judeu ou a “ansiedade econômica”. O crescimento econômico estagnado durante o período medieval, foco do livro de Marcus, não impediu o antissemitismo. Da mesma forma, períodos de crescimento lento no Reino Unido, como entre 2010 e 2024, não foram acompanhados por uma piora nas relações raciais de forma generalizada.
O que realmente enfraquece o racismo é a disposição da sociedade civil e do Estado em fazer proselitismo contra ele. O preconceito diminui quando as pessoas sentem vergonha de expressar declarações racistas em público. Para uma compreensão mais aprofundada sobre o combate ao antissemitismo globalmente e as iniciativas de erradicação do preconceito, recursos de organizações internacionais como as Nações Unidas oferecem valiosas perspectivas. Por outro lado, o racismo se fortalece com a erosão do princípio de que indivíduos não devem ser punidos pelos crimes reais ou percebidos de um grupo étnico ou religioso, e com a criação de um ambiente onde declarações racistas são proferidas sem constrangimento.
Lições do passado e o papel da política
A intolerância religiosa que levou a Europa católica a lançar cruzadas contra o cristianismo ortodoxo e o mundo muçulmano coincidiu com um declínio na condição dos judeus europeus. Essa correlação histórica serve como um alerta: o encorajamento do racismo de todos os tipos no Reino Unido hoje tem caminhado lado a lado com a ascensão do racismo especificamente antijudaico.
A lição do passado é inequívoca: enxergar o racismo como uma mera reação a eventos externos ou a deslocamentos econômicos é um erro. Tais eventos apenas desencadeiam aumentos no racismo se as sociedades não tiverem feito o suficiente para erradicar e condenar seu apelo latente. A melhor forma de derrotar o racismo é defender a igualdade perante a lei, a liberdade de religião, a liberdade de expressão e o princípio antirracista de que indivíduos, e não grupos, são responsáveis por suas ações. As disputas, enfatiza Bush, devem ser resolvidas nas urnas, não pela violência. Enquanto a classe política se mobilizar contra o racismo de forma intermitente e ambígua nesses pontos, o esforço de toda a sociedade para derrotar o antissemitismo estará fadado ao fracasso.
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