A invisibilidade do risco em relacionamentos estáveis
Um estudo recente realizado em Porto Alegre trouxe à tona uma realidade que desafia o senso comum sobre a epidemia de HIV no Brasil. A pesquisa, publicada na revista científica Aids Research and Treatment, indica que homens e mulheres heterossexuais, frequentemente casados ou em uniões estáveis e com filhos, compõem a maioria dos pacientes que recebem o diagnóstico da infecção já em estágio avançado, quando a doença evoluiu para a fase de Aids.
O levantamento analisou prontuários de 407 pacientes internados no Hospital Conceição, na capital gaúcha, entre 2015 e 2024. Os dados revelam um perfil demográfico que foge aos estereótipos historicamente associados ao vírus. Entre os homens, que representam 49% da amostra, a média de idade é de 42 anos, sendo que a grande maioria possui vínculo empregatício, parceira fixa e filhos. Entre as mulheres, que somam 35% dos casos, o cenário de estabilidade familiar também é predominante.
O impacto da baixa percepção de risco
Um dos pontos mais críticos levantados pelos pesquisadores é a baixa percepção de risco entre essa parcela da população. Apenas 24% dos pacientes analisados apresentavam indicadores de vulnerabilidade social ou comportamental que tradicionalmente levam os serviços de saúde a solicitar testes de rotina, como situação de rua, histórico de encarceramento ou uso de drogas injetáveis. O uso de entorpecentes injetáveis, por exemplo, foi relatado por apenas 1% dos participantes.
Essa ausência de fatores de risco clássicos contribui para que o diagnóstico ocorra apenas quando o paciente já apresenta complicações graves. O estudo utilizou critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS) para definir a doença avançada, incluindo a presença de infecções oportunistas — como tuberculose e neurotoxoplasmose — e uma contagem de células CD4, fundamentais para a imunidade, extremamente baixa.
Desafios no diagnóstico e barreiras institucionais
A mediana de contagem de células CD4 entre os pacientes do estudo foi de 53 células por milímetro cúbico, um número drasticamente inferior ao limite de 200, que marca o início da imunodeficiência severa. Segundo o infectologista Pedro Moreno Fonseca, um dos autores da pesquisa, o cenário aponta para uma falha sistêmica na detecção precoce. O estigma ainda enraizado na sociedade e a ideia equivocada de que o HIV estaria restrito a grupos específicos dificultam o rastreio.
“Muitas vezes, os profissionais da saúde não consideram como potencialmente expostos ao HIV tanto o homem quanto a mulher heterossexual que estão em um relacionamento estável”, observa Fonseca. O atraso no diagnóstico, portanto, parece ser o resultado de uma combinação complexa: a falta de autopercepção do risco pelo paciente, o estigma social e a perda de oportunidades de testagem durante consultas de rotina em unidades de saúde.
Contexto regional e o futuro da prevenção
O Rio Grande do Sul registrou, entre 2015 e 2024, mais de 51 mil diagnósticos de HIV ou Aids, conforme dados do Ministério da Saúde. O estudo no Hospital Conceição serve como um alerta para a necessidade de atualizar as estratégias de saúde pública. A mudança no perfil dos pacientes exige que o sistema de saúde amplie a oferta de testes para além dos grupos de vulnerabilidade, normalizando a testagem como parte essencial do cuidado preventivo em toda a população.
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