Sophie Cheriça/Divulgação/Nupes-UFJF

Especialista defende integração da espiritualidade como pilar no cuidado médico

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A abordagem da saúde humana tem evoluído para além da mera análise de sintomas físicos, reconhecendo a complexidade do ser. Nesse contexto, a espiritualidade emerge como um componente crucial para o tratamento integral do paciente. Christina Puchalski, renomada professora do curso de Medicina da George Washington University e uma das principais defensoras dessa integração, destaca que cuidar da pessoa como um todo significa considerar suas dimensões emocionais, sociais e espirituais, que frequentemente se entrelaçam com a saúde física.

Puchalski foi a convidada de honra do 7.º Congresso Internacional de Ciência, Saúde e Espiritualidade (CoNupes), realizado em Juiz de Fora (MG) no final de maio. Durante o evento, ela compartilhou sua visão sobre a importância de incorporar a atenção à espiritualidade nos serviços de saúde, uma perspectiva que, segundo ela, pode transformar a eficácia dos tratamentos e a qualidade de vida dos pacientes.

A experiência marcante que moldou uma visão

A percepção de Christina Puchalski sobre a relevância da espiritualidade no cuidado médico começou cedo, ainda em seus tempos de estudante. Ela recorda o caso de uma paciente Testemunha de Jeová gravemente enferma que, por suas crenças religiosas, recusava transfusões de sangue. Diante da insistência do cirurgião em que a paciente morreria sem o procedimento, Puchalski interveio, buscando alternativas.

“Existem outros produtos e alternativas que talvez possamos utilizar”, lembrou a médica ter dito. A equipe conseguiu encontrar uma solução que respeitava a fé da paciente. Ao acordar da cirurgia, a primeira pergunta da mulher foi se havia recebido algum produto sanguíneo. Ao ouvir que não, a paciente chorou de gratidão, afirmando que, se tivesse recebido sangue, “nunca poderia estar com Deus”. Esse episódio, marcado por críticas à sua postura, solidificou a convicção de Puchalski na importância de defender e respeitar as decisões dos pacientes baseadas em suas crenças.

FICA: uma ferramenta para avaliar a dimensão espiritual

Para auxiliar profissionais de saúde a abordar a espiritualidade de forma estruturada, Christina Puchalski desenvolveu a ferramenta FICA. Este acrônimo representa quatro pilares essenciais na avaliação da dimensão espiritual dos pacientes:

  • Fé: Questiona se o paciente acredita em algo ou tem alguma crença.
  • Influência: Avalia o quanto essa crença é importante em sua vida e decisões.
  • Comunidade: Investiga se o paciente participa de algum grupo ligado à sua espiritualidade.
  • Ação: Busca entender que tipo de intervenções o paciente gostaria que fossem feitas para suprir suas necessidades espirituais.

A ferramenta FICA não é apenas um questionário, mas um guia para uma conversa mais profunda. Puchalski exemplifica seu uso ao perguntar a pacientes sobre sua frequência à igreja ou prática de meditação, e como essas atividades impactam seu bem-estar. A partir das respostas, o profissional pode refletir junto ao paciente sobre possíveis intervenções ou ajustes que promovam o alívio do sofrimento espiritual.

Cuidado integral: além do diagnóstico e da medicação

A médica enfatiza que ignorar a dimensão espiritual pode levar a tratamentos ineficazes. “Se a verdadeira causa do sofrimento é espiritual e nós não a abordamos, acabamos oferecendo medicamentos, exames e tratamentos que não respondem ao que está acontecendo na alma daquela pessoa”, explica Puchalski. Ela cita o exemplo de um paciente em luto que, ao invés de espaço para compartilhar sua dor, recebe a sugestão de um antidepressivo.

A realidade social também se entrelaça com a espiritualidade. Puchalski, que trabalha com populações carentes em Washington, observa como a perda de entes queridos e as dificuldades financeiras afetam diretamente a saúde e o bem-estar espiritual. Nesses casos, a abordagem deve ser colaborativa, buscando soluções possíveis dentro da realidade do paciente, sem imposições.

Superando barreiras: treinamento e compreensão ampliada

A resistência à integração da espiritualidade na saúde, segundo Puchalski, muitas vezes decorre da falta de treinamento e do desconforto dos profissionais em lidar com o sofrimento profundo. A medicina tradicional, focada em “consertar problemas” com remédios e exames, nem sempre prepara os médicos para oferecer a “presença” e a escuta ativa que muitos pacientes necessitam.

Para superar essa barreira, é fundamental que os profissionais de saúde recebam formação adequada. Puchalski defende a normalização da espiritualidade, desmistificando-a como algo distante e mostrando que ela se manifesta na busca por significado, propósito e conexão na vida cotidiana. “Quando entendemos espiritualidade como significado, propósito e conexão com aquilo que é importante para a pessoa, encontramos um terreno comum para iniciar a conversa”, afirma, preferindo o termo “espiritualidade” em vez de “religião” para abranger um espectro mais amplo de experiências humanas. Mesmo para profissionais sem crenças religiosas, a compreensão da busca por significado e propósito é um ponto de partida para o cuidado empático.

A integração da espiritualidade no cuidado em saúde não é apenas uma questão de humanização, mas de eficácia. Dados científicos, conforme a professora, demonstram que modelos de atendimento que consideram a dimensão espiritual funcionam, reduzindo o sofrimento e promovendo um bem-estar mais completo. Para mais informações sobre o Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde, visite o site do Nupes da UFJF.

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