30.mar.26/Reuters

Fintech suspeita movimentou R$ 1,3 bilhão para Goiás e cobrou taxas de comerciantes

Politica

Uma investigação revelou que a gestão do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), utilizou uma fintech sob suspeita de atuar como um banco paralelo para a facção criminosa PCC. A empresa, identificada como BK Instituição de Pagamento, ou BK Bank, movimentou impressionantes R$ 1,36 bilhão em programas de transferência de renda do estado. A revelação, baseada em um documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), acende um alerta sobre a fiscalização de parcerias público-privadas e o impacto direto sobre o comércio local.

Os repasses bilionários ocorreram entre outubro de 2021 e agosto de 2025, abrangendo os dois mandatos de Caiado, que deixou o governo em 31 de março deste ano para se lançar como pré-candidato à Presidência da República. A Agência de Fomento de Goiás, com o governo estadual como acionista majoritário, foi a responsável por operacionalizar esses benefícios sociais, que atendem cerca de 880 mil goianos, conforme informações da própria gestão.

A Operação Carbono Oculto e a Fintech Suspeita

A BK Bank não é uma instituição qualquer. Ela foi apontada pela Polícia Federal (PF), pela Receita Federal e pelo Ministério Público de São Paulo como suspeita de operar para o PCC. Essa ligação veio à tona com a deflagração da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, que investiga a atuação da fintech em esquemas de lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas para a facção criminosa.

A utilização de uma empresa com tal histórico para gerir recursos públicos de programas sociais levanta sérias questões sobre os critérios de contratação e a devida diligência por parte do governo. A transparência e a segurança na movimentação de verbas destinadas à população mais vulnerável são pilares essenciais da administração pública, e qualquer sombra de dúvida compromete a confiança dos cidadãos nas instituições.

Movimentação Bilionária em Programas Sociais

Os R$ 1,36 bilhão foram direcionados a uma conta na BK Bank, de onde eram realizados os pagamentos aos cartões dos beneficiários finais dos programas de transferência de renda. Essa estrutura, embora visasse agilizar a distribuição dos auxílios, expôs uma vasta quantia de dinheiro público a uma instituição sob forte escrutínio das autoridades.

A Agência de Fomento de Goiás, peça central nessa engrenagem, tinha a função de garantir que os recursos chegassem aos seus destinos. No entanto, a escolha da BK Bank como parceira para essa tarefa crucial, em um período tão extenso, agora é alvo de questionamentos, especialmente diante das revelações da Operação Carbono Oculto. A complexidade das operações financeiras e a ascensão das fintechs exigem um rigor ainda maior na fiscalização, para evitar que essas inovações sejam cooptadas por redes criminosas.

O Impacto das Taxas sobre Comerciantes

Além da movimentação dos recursos, o modelo de parceria com a BK Bank incluía uma taxa de utilização que recaía sobre os estabelecimentos comerciais credenciados. Essa taxa, que podia chegar a 6% sobre o valor das operações dos programas sociais, era dividida: até 2024, 50% iam para a Agência de Fomento e 50% para a BK Bank.

A partir de 2024, o Governo de Goiás contratou uma nova fintech, alterando a divisão da taxa. A Agência de Fomento passou a receber 75,6%, enquanto a nova instituição financeira ficava com 24,4%. Mesmo com a mudança, os repasses de saldos remanescentes à BK Bank prosseguiram até agosto de 2025, coincidindo com a deflagração da Operação Carbono Oculto. Essa cobrança indireta dos comerciantes, que são parte fundamental da cadeia de distribuição dos benefícios, adiciona uma camada de complexidade e potencial onerosidade ao sistema.

Posicionamento do Governo e Desdobramentos

Em resposta às acusações, o Governo de Goiás afirmou ter contratado uma nova instituição financeira e que adotou medidas judiciais após a Operação Carbono Oculto. A gestão estadual justifica a permanência dos repasses à BK Bank até agosto de 2025 pela existência de saldos remanescentes, buscando dar continuidade aos pagamentos dos programas sociais. Por sua vez, a BK Bank não se manifestou sobre as alegações.

Este cenário sublinha a necessidade de um escrutínio contínuo sobre as relações entre o poder público e empresas privadas, especialmente em setores sensíveis como o financeiro e o de programas sociais. A apuração completa dos fatos e a responsabilização dos envolvidos são cruciais para garantir a integridade dos recursos públicos e a confiança da população. O Diário Global continuará acompanhando de perto os desdobramentos desta e de outras investigações que impactam a administração pública e a vida dos brasileiros.

Para mais informações sobre a atuação do Coaf e operações de combate à lavagem de dinheiro, consulte fontes oficiais como o site do Coaf.

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