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Incontinência urinária: por que o tema precisa sair do silêncio e entrar na agenda pública

Saúde

O desafio da invisibilidade no envelhecimento

A dificuldade de acesso a itens básicos de higiene, como fraldas, banheiros adaptados e orientação profissional, tem empurrado milhares de brasileiros para uma condição de vulnerabilidade silenciosa. A incontinência urinária, frequentemente tratada como um constrangimento privado, é um problema de saúde pública que exige atenção urgente. Especialistas defendem que o tema precisa deixar de ser um tabu para integrar, de forma definitiva, a agenda de políticas de envelhecimento e promoção da saúde no Brasil.

O debate ganhou força durante um encontro recente na Fiesp, em São Paulo, que reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais da saúde. A discussão central girou em torno da necessidade de romper o estigma que cerca a condição, comparando-o ao movimento de conscientização sobre a pobreza menstrual, que, anos atrás, também enfrentava barreiras sociais significativas antes de se tornar uma pauta de direitos humanos e saúde pública.

A barreira do estigma e a falta de dados

Para o pesquisador britânico Peter Lloyd-Sherlock, especialista em políticas de saúde para idosos, a sociedade enfrenta uma “nova conversa social” necessária. Segundo o especialista, o silêncio em torno da incontinência reproduz um estigma que impede o avanço de políticas eficazes. “Hoje já conseguimos falar publicamente sobre higiene menstrual. Há 20 anos isso seria impensável. Com a incontinência, nem começamos”, afirmou durante o evento.

O campo científico também reflete essa lacuna. Uma revisão sistemática da literatura, conduzida por pesquisadores brasileiros e estrangeiros, identificou menos de dez estudos com evidências específicas sobre continência e higiene na população idosa. Essa escassez de dados é apontada como uma exclusão impressionante, considerando que o problema afeta milhões de pessoas globalmente. A omissão é atribuída à marginalização histórica da saúde do idoso e ao desconforto social em abordar temas ligados a excreções corporais.

Impactos no cotidiano e subnotificação

No dia a dia, o estigma gera um ciclo vicioso: o constrangimento faz com que muitos idosos evitem relatar os sintomas aos seus médicos. Essa resistência, somada à falta de preparo dos sistemas de saúde, contribui para uma subnotificação severa e um atraso considerável no diagnóstico precoce. Dados apresentados no encontro indicam que mais de 3 milhões de idosos brasileiros, ou cerca de 10% dessa população, sofrem com sintomas de incontinência.

As estimativas são ainda mais alarmantes ao considerar que mais da metade das pessoas enfrentará algum episódio de incontinência ao longo da vida. Essa invisibilidade produz um efeito em cascata: sem informação adequada, famílias recorrem a soluções improvisadas ou enfrentam custos elevados com produtos de higiene. Para os mais vulneráveis, a falta de acesso a esses recursos básicos compromete a dignidade e a qualidade de vida, transformando uma condição tratável em um fator de isolamento social.

Obstáculos no acesso aos serviços públicos

A enfermeira Larissa Chaves Pedreira, professora da UFBA, destaca que o acesso aos insumos fornecidos pelo poder público é, muitas vezes, uma maratona burocrática. O processo exige a apresentação de laudos médicos, cadastros presenciais e longos períodos de espera até a liberação das fraldas. Essa complexidade administrativa acaba por excluir justamente os idosos que mais necessitam de suporte estatal, perpetuando a desigualdade no cuidado.

O Diário Global segue acompanhando os desdobramentos sobre as políticas de envelhecimento e saúde pública. Para se manter informado sobre este e outros temas fundamentais para a sociedade, continue acompanhando nossa cobertura completa, pautada pelo compromisso com a informação de qualidade e o debate plural.

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