Cenário de incerteza na corrida pela secretaria-geral
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, na tarde desta segunda-feira (31), a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, em Brasília. O encontro ocorre em um momento crítico para a postulação da chilena ao cargo de secretária-geral da ONU (Organização das Nações Unidas). A candidatura enfrenta dificuldades expressivas após o desempenho abaixo do esperado em duas rodadas iniciais de consultas informais realizadas pelo Conselho de Segurança.
Fontes próximas às negociações indicam que o encontro serviu para que ambos os líderes reavaliassem o fôlego da campanha. A estratégia traçada aponta para a necessidade de aguardar novas rodadas de votação, que devem ser convocadas pela França, país que assume a presidência rotativa do colegiado durante o mês de setembro. A expectativa é que essas novas consultas possam oferecer um panorama mais claro sobre a viabilidade real do nome de Bachelet frente aos demais concorrentes.
Desafios diplomáticos e o papel do México
A trajetória da candidatura de Bachelet tem sido marcada por obstáculos complexos. Embora conte com o apoio formal do Brasil e do México, a ex-presidente chilena enfrenta a ausência de respaldo de seu próprio país, uma vez que o governo do Chile, sob a gestão do direitista José Antonio Kast, retirou o endosso oficial à sua compatriota.
Antes de chegar ao Brasil, Bachelet passou pela Cidade do México para uma reunião com a presidente Claudia Sheinbaum. O episódio, contudo, gerou ruídos diplomáticos. A necessidade de aguardar dois dias para ser recebida e a declaração cautelosa da líder mexicana, que afirmou ser preciso analisar as “possibilidades” da candidatura, levantaram dúvidas sobre o nível de comprometimento do governo mexicano com o nome da ex-presidente.
A barreira no Conselho de Segurança
O maior desafio para a eleição de Bachelet reside na dinâmica interna do Conselho de Segurança da ONU. O processo de seleção envolve pesquisas secretas, nas quais os países membros indicam se encorajam, desencorajam ou mantêm neutralidade em relação a cada postulante. O grande entrave, segundo analistas, seria a aparente oposição do governo dos Estados Unidos, que detém poder de veto e pode inviabilizar qualquer candidatura que não alinhe com seus interesses estratégicos.
Apesar das dificuldades, o Brasil e o México mantêm a defesa de que a liderança da ONU deve ser ocupada por um representante da América Latina, região que não comanda a organização desde a gestão do peruano Javier Pérez de Cuéllar, entre 1982 e 1991. Além disso, a pauta de gênero é central: desde a fundação da ONU, em 1946, o cargo máximo foi ocupado exclusivamente por homens. A trajetória de Bachelet, que inclui passagens como ministra da Defesa e da Saúde no Chile, além de ter liderado a ONU Mulheres e atuado como comissária de direitos humanos da organização, é o principal trunfo de sua campanha.
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