A epopeia clássica de Homero, A Odisseia, continua a ressoar com uma surpreendente atualidade, oferecendo lentes para compreender fenômenos contemporâneos. Longe de ser apenas um relato antigo de uma jornada de volta para casa, a narrativa de Odisseu, o herói astuto e complexo, projeta uma luz sobre a ascensão de figuras públicas que desafiam as normas e desestabilizam o status quo. Na visão de um colunista, a obra, que ele associa metaforicamente ao trabalho do diretor Christopher Nolan, captura a essência de quem nos tornamos e aponta caminhos para o futuro, especialmente em um cenário dominado por personalidades como Elon Musk e Donald Trump.
O cerne da reflexão reside no arquétipo do trapaceiro, uma figura central na mitologia e na cultura popular. Odisseu é, desde o primeiro verso da história, descrito como um homem de “muitos caminhos”, “muitos ardis” ou “muitas voltas”. Ele é engenhoso, astuto e repleto de contradições: anseia por sua casa e esposa, mas se vê constantemente envolvido em aventuras e romances com deusas. Sua natureza multifacetada impede que seja definido por uma única característica, tornando-o um espelho para a complexidade humana.
O Arquétipo do Trapaceiro: De Odisseu aos Mitos Globais
A figura do trapaceiro não é exclusiva da mitologia grega. Ela se manifesta em diversas culturas ao redor do mundo, assumindo diferentes nomes e formas: Loki na mitologia nórdica, Eshu nas histórias iorubás, Coiote ou Corvo nos contos indígenas americanos, Maui na Polinésia e Hermes, ao lado de Odisseu, entre os gregos antigos. Esses personagens compartilham a característica de operar fora das regras estabelecidas, desafiando a ordem e revelando verdades incômodas.
Em seu aclamado livro Trickster Makes This World: Mischief, Myth, and Art, o autor Lewis Hyde explora a função essencial do trapaceiro: “revelar e desestabilizar justamente aquilo de que uma cultura depende”. O trapaceiro transita entre costumes e tabus, expressa o indizível e executa o proibido, injetando desordem na ordem e tornando visível o que antes estava oculto. Essa perturbação, embora potencialmente danosa, pode ser catalisadora de crescimento e renovação. Contudo, o desfecho nunca é garantido; o trapaceiro pode ser tanto regenerador quanto ruinoso, trazendo o fogo e o sol, mas também o Ragnarok.
Hyde argumenta que os trapaceiros são simultaneamente necessários e perigosos, representando uma tensão intrínseca a toda sociedade. Uma cultura que não consegue reagir à ruptura com criatividade corre o risco de sucumbir à mudança, enquanto uma sociedade incapaz de proteger seus valores fundamentais pode ser consumida pela corrupção. O equilíbrio é delicado: excesso de ordem leva à paralisia, e caos demais, ao colapso.
A Era do Caos e os Trapaceiros Modernos
Vivemos, inegavelmente, em uma era de caos, marcada pela proeminência de figuras que encarnam o espírito do trapaceiro. Personalidades como Elon Musk, o ex-presidente Donald Trump, Tucker Carlson, Andrew Tate e Nick Fuentes, entre outros, utilizam uma “gramática ardilosa” para se comunicar com o público. A linha entre o sério e o não sério, a provocação e a promessa, torna-se cada vez mais tênue. Eles acumulam poder ao atropelar costumes e tabus, proferindo o que antes era considerado indizível e agindo de maneiras que desafiam as expectativas.
Embora não sejam puramente “criadores de cultura” no sentido que Hyde prefere, essas personalidades dominantes da nossa era demonstram uma maestria na arte da transgressão. A observação de Hyde, feita em 1998, de que os americanos “adoram um trapaceiro porque ele encarna coisas que são de fato verdadeiras sobre os Estados Unidos, mas não podem ser declaradas abertamente”, talvez tenha sido precisa para a época. Naquele período, as instituições e os costumes americanos poderiam ter se enrijecido, com uma burocratização excessiva e pouca abertura para a transgressão e a inovação.
No entanto, o cenário atual é diferente. Hoje, há pouco que não possa ser dito. Os princípios morais e as ideias que sustentaram o melhor da cultura ocidental foram desestabilizados e até profanados. A questão premente é se essa ruptura generalizada pode ser enfrentada com criatividade e, mais importante, com renovação de valores.
A Ética da Odisseia e o Dilema Contemporâneo
A discussão sobre a Odisseia, na interpretação do colunista, parece girar em torno de uma “lei de Zeus” que prega: “trate o mendigo e o estrangeiro como você gostaria de ser tratado”. Essa interpretação, contudo, difere da lei clássica de Zeus, que é mais restrita e exige hospitalidade ao hóspede ou estrangeiro, reconhecendo a possibilidade de que qualquer um poderia ser um deus disfarçado. A distinção é crucial: a lei clássica não é uma ética da compaixão ou reciprocidade, mas sim de respeito e prudência.
O colunista argumenta que o diretor, ao apresentar essa “lei de Zeus” mais abrangente, “introduziu às escondidas o núcleo da ética judaico-cristã” na Odisseia. Essa ética ecoa passagens como Levítico 19:34 (“O estrangeiro residente entre vocês deverá ser tratado como o natural da terra. Ame-o como a si mesmo, pois vocês foram estrangeiros no Egito“), as palavras do rabino Hillel (“O que é odioso para você, não faça ao seu semelhante. Essa é toda a Torá; o restante é comentário”) e Mateus 7:12, a Regra de Ouro de Jesus (“Em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles façam a vocês, pois nisso se resumem a Lei e os Profetas“).
Essa é uma ética exigente, à qual poucos conseguem viver plenamente. Contudo, o problema com os adeptos da direita moderna, conforme a análise, não é apenas a dificuldade em viver à altura dela, mas a aversão explícita a esses princípios. Tratar o estrangeiro com a mesma dignidade de um nativo é frequentemente ridicularizado como “empatia suicida”. A administração Trump, por exemplo, foi criticada por glorificar a crueldade contra imigrantes e por reduzir impostos para os ricos à custa de programas sociais para os mais vulneráveis. A lógica predominante, como expressou Stephen Miller, um ex-assessor da Casa Branca, é que o mundo “é governado pela força, pela coerção, pelo poder”, as “leis de ferro do mundo desde o início dos tempos”.
A grande questão que permanece é se essas “leis de ferro” foram, de fato, substituídas pela Regra de Ouro. A astúcia de Odisseu, ao conceber o Cavalo de Troia, explorou a veneração dos troianos pelos mesmos deuses que ele cultuava. Essa manobra, embora engenhosa, levanta o questionamento sobre os limites da astúcia e da manipulação frente a valores éticos mais profundos. Em um mundo onde a desestabilização é a norma, a busca por uma bússola moral torna-se mais urgente do que nunca.
Para aprofundar-se nos estudos sobre o arquétipo do trapaceiro e sua relevância cultural, explore a obra de Lewis Hyde, um dos maiores pensadores sobre o tema. Você pode encontrar mais informações sobre seu trabalho aqui.
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