8.mai.25/The New York Times

Ross Douthat: o debate sobre a inteligência artificial e a reflexão papal

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Em um cenário de crescente discussão sobre o futuro da tecnologia, o colunista do The New York Times, Ross Douthat, mergulha nas complexidades da inteligência artificial (IA) a partir de uma perspectiva singular: a repercussão de um manifesto papal. Em sua análise, Douthat explora as reações ao pronunciamento do Papa Leão 14 sobre a IA, notando a decepção de céticos que consideraram a abordagem do sumo pontífice insuficiente diante dos desafios impostos pela era digital.

A intervenção papal, que descreve a IA como uma “ferramenta valiosa que requer vigilância”, gerou críticas por sua suposta falta de incisividade. Greg Conti, da Universidade Princeton, em artigo na revista Compact, questionou a necessidade de declarar a “era da IA” e sugeriu que um papa poderia, em vez disso, convocar uma “era de resistência à IA”. Anton Barba-Kay, crítico cultural da The Hedgehog Review, foi ainda mais direto, comparando a postura papal a dizer que “a cocaína pode ser uma droga valiosa que deve ser cheirada com uma pitada de ceticismo”.

A dualidade do “tarde demais e cedo demais” para a resistência

Ross Douthat compartilha, em parte, a visão de seus críticos, sentindo que o Papa Leão 14 poderia ter aprofundado a discussão sobre a estranheza intrínseca da IA, seu desafio ao excepcionalismo humano e as razões por trás dos impulsos messiânicos e medos apocalípticos que ela gera. Contudo, Douthat argumenta que um chamado papal para uma resistência massiva à era da IA, em 2026, seria paradoxalmente “tarde demais e cedo demais”.

A justificativa para o “tarde demais” reside na profunda infiltração da tecnologia na sociedade. A IA já construiu uma vasta infraestrutura, gerou imensa riqueza e prometeu inúmeros benefícios de curto prazo, envolvendo diversas instituições. Douthat considera improvável que essa revolução possa ser “extirpada ou reprimida” a esta altura.

Por outro lado, o “cedo demais” se baseia na natureza humana de reagir a uma tecnologia apenas quando seus danos se tornam inegáveis. A história mostra que as regulamentações que controlaram a industrialização foram moldadas pelos abusos da época, e os movimentos contra a proliferação nuclear só ganharam força após as lições de Hiroshima e Nagasaki. Da mesma forma, a recente reação contra o uso de smartphones por crianças não poderia ter sido antecipada em 2010, aguardando a manifestação clara de seus efeitos negativos.

A moralidade e o pecado na era da inteligência artificial

Douthat reconhece que, idealmente, a resposta aos perigos precederia a lição amarga. No entanto, ele sugere que, para que o mundo aja, alguma versão do “Grande Mal” da IA precisa ser não apenas visível, mas inegável. Para o humanista cristão, há uma confiança de que a providência divina concederá o tempo necessário para domar, regular ou até extirpar o que for prejudicial, em vez de sucumbir à destruição.

Nesse contexto, céticos e críticos não precisam apenas esperar que seus piores temores se concretizem. Se há convicção sobre os perigos existenciais da IA, a ação deve focar em regulamentações incrementais e maior conscientização política, mesmo que o desejo seja uma moratória abrangente. Tyler Austin Harper, na The Atlantic, argumenta que céticos seculares da IA são atraídos por pensadores religiosos, como o papa, porque a linguagem do “dano” parece inadequada para os perigos da IA, que seriam melhor identificados pela linguagem do “pecado”.

Identificando o pecado digital e construindo o futuro

Se a linguagem do pecado é a mais apropriada, o objetivo do crítico, segundo Douthat, deveria ser identificar o pecado diretamente, em vez de lamentar o avanço geral da tecnologia ou justificar indivíduos apanhados pela disrupção. Não se deve apenas lamentar o destino do ensino superior, mas afirmar que estudantes que usam IA para colar estão cometendo um erro grave.

Da mesma forma, não basta preocupar-se com a proliferação de prosa influenciada por ferramentas como o Claude; é preciso declarar que o romancista ou ensaísta que terceiriza um capítulo para a IA cometeu um “crime literário que encerra carreiras”. A preocupação papal de que receber “palavras de conselho, empatia, amizade e até amor” de um chatbot possa ser “enganoso” para “usuários menos discernentes” deve ser elevada a um alerta mais direto: Douthat sugere que católicos e outros cristãos deveriam ser informados de que tratar um bot de IA como parceiro romântico é pecado.

O propósito de tal condenação não é deter a grande disrupção da IA, mas sim lançar as bases para as estruturas que a sociedade construirá no futuro. A contribuição essencial do crítico não é convencer magicamente todos de que é errado usar IA, mas sim persuadir algumas pessoas, e depois mais, e eventualmente quase todos, de que pode ser errado usar a IA de certas maneiras. Essa abordagem visa moldar a consciência coletiva sobre os limites éticos e morais da tecnologia, preparando o terreno para uma convivência mais responsável com a inteligência artificial. Para aprofundar-se nas análises de Ross Douthat, visite o site do The New York Times.

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