O uso de canabidiol (CBD) para o tratamento de condições como ansiedade, dor crônica e estresse consolidou-se como uma prática comum entre humanos. Com a popularização da substância, muitos tutores de animais de estimação passaram a questionar se o composto, extraído da planta da Cannabis, seria igualmente seguro e eficaz para seus cães. A proliferação de vídeos em redes sociais exibindo pets que consomem petiscos e óleos à base de CBD alimenta esse debate, mas especialistas alertam que a realidade clínica é mais complexa do que sugerem os conteúdos virais.
O cenário atual das pesquisas veterinárias
Embora o CBD possua potencial terapêutico, a comunidade científica reforça que as evidências sobre seu uso em cães ainda são limitadas. Diferente de medicamentos convencionais, a maioria dos produtos de CBD disponíveis no mercado não passa por testes rigorosos de segurança e eficácia. Jennifer Quammen, veterinária e presidente da Associação Americana de Medicina Veterinária, destaca que a disponibilidade comercial desses produtos avançou muito mais rápido do que a comprovação científica necessária para garantir o bem-estar animal.
Estudos realizados até o momento, como os conduzidos pela Universidade Estadual do Colorado, indicam que o CBD pode apresentar propriedades anticonvulsivantes e analgésicas. No entanto, os resultados são variáveis. Em um levantamento com 51 cães epilépticos, a administração de CBD reduziu a frequência de dias com convulsões, mas não eliminou as crises de forma significativa em comparação aos grupos de controle. Situação semelhante ocorre no tratamento da osteoartrite, onde, embora alguns animais tenham apresentado melhora, a eficácia do composto ainda é debatida em comparação ao uso de placebos.
Riscos, efeitos colaterais e falta de regulação
A ausência de uma agência reguladora, como a FDA, que fiscalize a composição desses produtos, gera um risco adicional aos tutores. Madeline Droog, farmacêutica do Hospital Veterinário Universitário da Texas A&M, alerta que o que consta no rótulo nem sempre corresponde ao conteúdo real do frasco. Testes de mercado já identificaram produtos com contaminação por metais pesados, ausência de canabinoides ou presença de níveis elevados de THC, substância que pode ser tóxica para cães.
Além da incerteza sobre a qualidade, o uso do CBD pode trazer efeitos colaterais observados em ambiente clínico, tais como:
- Alterações nas enzimas hepáticas, sugerindo sobrecarga no fígado.
- Náuseas, vômitos e episódios de salivação excessiva.
- Perda de apetite e desequilíbrio motor.
O mito da ansiedade canina
Um dos pontos de maior divergência entre a percepção pública e a ciência é o tratamento da ansiedade. Enquanto usuários nas redes sociais frequentemente relatam sucesso no uso de CBD para acalmar cães com medo de ruídos ou comportamentos agressivos, as pesquisas veterinárias não corroboram essa eficácia. Segundo a Associação Americana de Medicina Veterinária, os estudos controlados não demonstraram diferenças significativas na redução de comportamentos ligados ao estresse entre os animais que receberam CBD e aqueles que não receberam.
O consenso entre os especialistas é claro: antes de qualquer intervenção, a consulta com um médico veterinário é indispensável. O tratamento de doenças crônicas ou comportamentais exige diagnósticos precisos e terapias validadas, evitando que o tutor exponha o animal a substâncias sem eficácia comprovada ou, pior, que podem comprometer a saúde do fígado e o bem-estar geral do pet.
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