Imunizante contra herpes-zóster pode reduzir risco de demência em idosos, aponta estudo

Imunizante contra herpes-zóster pode reduzir risco de demência em idosos, aponta estudo

Saúde

Uma nova pesquisa publicada no renomado periódico Annals of Internal Medicine sugere que a vacinação contra o vírus herpes-zóster pode estar associada a uma diminuição significativa no risco de desenvolvimento de demência em pessoas idosas. O estudo, liderado por pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade Brown, nos Estados Unidos, traz uma perspectiva promissora para a prevenção do declínio cognitivo, uma preocupação crescente na saúde pública global.

A demência, uma condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, é caracterizada pela perda progressiva de funções cognitivas, impactando severamente a qualidade de vida. Encontrar estratégias de prevenção ou mitigação é um campo de intensa pesquisa, e a potencial conexão com uma vacina já existente abre novas avenidas para a saúde cerebral.

O Herpes-zóster e seus impactos silenciosos no sistema nervoso

O vírus herpes-zóster é o mesmo responsável pela varicela, conhecida popularmente como catapora. Após a infecção inicial, geralmente na infância, o vírus não é eliminado do organismo; ele permanece latente em gânglios do sistema nervoso por décadas. Com o envelhecimento ou em situações de baixa imunidade, o vírus pode ser reativado, causando o popularmente conhecido “cobreiro”, uma doença caracterizada por lesões cutâneas dolorosas, coceira e bolhas.

Contudo, os impactos do herpes-zóster podem ir além da pele. O vírus tem a capacidade de atingir o sistema nervoso central, desencadeando um processo inflamatório crônico. Essa inflamação persistente, somada aos efeitos naturais do envelhecimento, pode comprometer os mecanismos de reparação cerebral, levando a danos significativos. O neurologista Augusto Penalva de Oliveira, do Einstein Hospital Israelita, explica que essa condição inflamatória crônica é um fator preocupante. “Estudos sugerem que esse vírus está associado não só à demência, mas também a quadros vasculares, como acidente vascular cerebral [AVC]”, ressalta o especialista, evidenciando a complexidade e a abrangência dos riscos associados à reativação viral.

Vacina contra herpes-zóster: um escudo para o cérebro?

A ideia de que a vacina contra herpes-zóster poderia oferecer proteção cerebral não é totalmente nova. Pesquisas observacionais anteriores já haviam apontado para essa associação, mas o novo estudo buscou aprofundar essa compreensão. Os pesquisadores simularam um estudo randomizado, utilizando um vasto banco de dados de pacientes que frequentaram clínicas ou instituições de saúde entre 2017 e 2022, todos com mais de 66 anos e sem diagnóstico inicial de demência.

Foram analisados os registros de mais de 500 mil indivíduos, comparando aqueles que receberam pelo menos uma dose da vacina contra herpes-zóster com os não imunizados. Os resultados foram encorajadores: uma queda no risco de desenvolver demência foi constatada entre os participantes vacinados. Embora o estudo apresente limitações metodológicas, como a possibilidade de imprecisões nos registros diagnósticos e o grande volume de pacientes que não puderam ser totalmente avaliados, o neurologista Augusto Penalva de Oliveira mantém uma visão otimista. “Ainda assim, há um grande potencial de a vacina ter esse efeito protetor”, avalia, sublinhando a importância dos achados.

Recomendações e o cenário de acesso à vacina no Brasil

Diante dos riscos associados à reativação do vírus herpes-zóster, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) já recomenda a vacinação de rotina para todos os adultos a partir dos 50 anos de idade. Essa recomendação se estende até mesmo para aqueles que já desenvolveram a doença em algum momento, reforçando a importância da imunização como medida preventiva.

No entanto, o acesso à vacina no Brasil ainda é um desafio para parte da população. Atualmente, o imunizante contra herpes-zóster está disponível apenas na rede privada, o que pode limitar a cobertura vacinal e, consequentemente, o potencial impacto na saúde pública. A discussão sobre a inclusão da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS) é fundamental para ampliar o acesso e permitir que mais idosos se beneficiem dessa possível proteção adicional contra a demência e outras complicações do vírus.

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