A busca por uma noite de sono tranquila levou milhões de brasileiros a um medicamento que, embora eficaz, esconde riscos alarmantes. O zolpidem, o indutor de sono mais consumido no país, tem sido associado a efeitos colaterais severos, que vão desde amnésia até episódios de sonambulismo com consequências trágicas. A história do médico Vitor Piva, de 34 anos, ilustra de forma dramática os perigos do uso inadvertido dessa substância.
Em 29 de junho de 2022, após um plantão exaustivo em São Paulo, Piva tomou um comprimido de zolpidem para combater a insônia. Sem sucesso imediato, ele consumiu mais doses, perdendo a consciência do que fazia. Dias depois, acordou na UTI do Hospital das Clínicas, gravemente ferido, com a perna direita amputada e sem a visão. A polícia, que inicialmente investigou uma tentativa de suicídio, concluiu que a queda do sétimo andar de seu apartamento foi um efeito colateral do medicamento, citando “alucinações e parassonias (sonambulismo)” como possíveis causas.
O Alerta Dramático do Caso Vitor Piva
O episódio vivido por Vitor Piva, que sua família atribui a um surto de sonambulismo induzido pelo zolpidem, tornou-se um símbolo da crescente preocupação com o uso do medicamento. A polícia arquivou o caso, reconhecendo que a queda não foi intencional, mas sim uma consequência inesperada dos efeitos do remédio. Este caso, longe de ser isolado, acende um alerta sobre a banalização do zolpidem e seus potenciais impactos na saúde pública brasileira.
A recuperação de Piva, considerada um milagre, trouxe à tona a necessidade de um debate mais aprofundado sobre a prescrição, o consumo e os riscos associados a esse hipnótico. A experiência do médico ressalta que, mesmo em doses aparentemente controladas, os efeitos adversos podem ser imprevisíveis e devastadores, transformando um auxílio para o sono em uma ameaça à vida.
A Ascensão e Banalização do Zolpidem no Brasil
Lançado no final dos anos 1980, o zolpidem chegou ao Brasil em meados da década de 1990, mas sua popularidade explodiu a partir de 2007, com a expiração da patente e o surgimento de versões genéricas. Destinado ao tratamento de insônia de curto prazo, com recomendação de uso máximo de quatro semanas, o medicamento se tornou a escolha principal para muitos que sofrem com distúrbios do sono.
Um estudo recente do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), publicado na revista Sleep Science, revelou que a insônia, que afeta até um terço dos brasileiros, é frequentemente tratada com medicamentos (60% dos entrevistados). Entre eles, os hipnóticos, com o zolpidem à frente, são os mais consumidos. O psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo, do Programa de Transtornos do Sono do IPq-FMUSP, alerta: “O problema foi a progressiva banalização de seu uso, muitas vezes como se fosse um simples indutor do sono de baixo risco, sendo prescrito de forma não cuidadosa.”
A situação se agravou com a pandemia de Covid-19. Em 2020, a comercialização do zolpidem disparou, atingindo 23,3 milhões de caixas vendidas, um aumento que levou profissionais de saúde a classificar o cenário como uma “epidemia de zolpidem”.
Efeitos Adversos e o Perigo da Dependência
Apesar de sua eficácia quando usado corretamente, o zolpidem pode desencadear uma série de reações adversas preocupantes. Entre elas, destacam-se a dependência química, crises de abstinência, amnésia, sonambulismo e delírios. Esses efeitos, embora atípicos em doses e prazos indicados, tornam-se corriqueiros devido ao consumo inadequado por parte de muitos pacientes.
Os riscos são potencializados quando o medicamento é combinado com álcool ou outros depressores do sistema nervoso central. Além disso, a rápida tolerância ao zolpidem leva muitos usuários a aumentar as doses por conta própria, elevando exponencialmente os perigos. “É muito comum um paciente que toma cinco, seis ou até oito vezes a dose máxima recomendada, que é um comprimido de 10 mg por dia”, afirma o psiquiatra Sérgio Tamai, membro da diretoria da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
Tamai também ressalta um dos efeitos mais comuns: a amnésia lacunar. “A pessoa tem um ‘branco’ e não sabe o que fez durante um determinado período”, explica. Casos como o de um paciente que encontrou o carro amassado e mal estacionado, sem se lembrar de ter sido ele mesmo o responsável, ilustram a gravidade desse efeito.
Anvisa Reage: Novas Regras e o Desafio do Mercado Ilegal
Diante do cenário de alto consumo e dos riscos associados, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) adotou medidas para restringir a venda do zolpidem. Desde agosto de 2024, o medicamento foi incluído na lista dos popularmente conhecidos como “tarja preta”. Isso significa que sua comercialização, antes permitida com receita branca de controle especial, agora exige a receita azul, um documento específico da Anvisa para medicamentos com potencial de causar dependência, e só pode ser prescrito presencialmente.
A mudança na regulamentação já mostra resultados nos números oficiais: as vendas caíram para cerca de 13,5 milhões de caixas no ano passado. Contudo, essa redução não elimina um problema preexistente e persistente: o mercado ilegal de medicamentos sem prescrição médica. A Anvisa continua investigando as origens desse comércio clandestino, um desafio complexo que exige vigilância constante e ações coordenadas para proteger a saúde da população.
A história do zolpidem no Brasil é um lembrete da importância da informação e do acompanhamento médico rigoroso. O Diário Global segue atento a temas que impactam diretamente a vida dos cidadãos, trazendo análises aprofundadas e contextualizadas para que você esteja sempre bem informado. Continue acompanhando nosso portal para mais notícias relevantes e de qualidade.

