2.jan.06/Folhapress

A jornada de Marcelo Leite: rios ‘assassinados’ e a esperança de renascimento

Saúde

O jornalista e colunista Marcelo Leite, conhecido por sua atuação em temas de ciência e ambiente, oferece uma reflexão profunda sobre a relação da humanidade com os rios, explorando a dualidade entre a vida e a “morte” desses ecossistemas vitais. Em sua análise, Leite convida o leitor a questionar a percepção comum sobre os cursos d’água, desde a inocência infantil que os vê como seres vivos até a complexidade adulta que os degrada. Sua perspectiva, moldada por experiências pessoais e reportagens, destaca a urgência de reconhecer nossa cumplicidade na saúde ou destruição fluvial.

A discussão central de Leite ecoa a obra do escritor britânico Robert Macfarlane, que em seu livro “Is a River Alive?” (2025), explora a questão da vitalidade dos rios. Macfarlane relata a simplicidade da resposta de seu filho de nove anos, Will, que prontamente afirma que a resposta é “sim”. Para as crianças, a natureza é intrinsecamente viva, um mundo de árvores falantes e rios canoros. Contudo, para os adultos, a aceitação do óbvio muitas vezes exige longos argumentos e uma desconstrução de anos de distanciamento da natureza.

A visão infantil e a complexidade adulta sobre os rios

A percepção de que os rios estão vivos é, segundo Macfarlane, uma intuição que a maioria das pessoas já teve em algum momento da história. No entanto, essa conexão se perde na modernidade. Marcelo Leite traz essa reflexão para a realidade brasileira, especialmente para quem cresceu em São Paulo na segunda metade do século 20. A experiência de conviver com rios como o Tietê e o Pinheiros, transformados em esgoto a céu aberto, gera a sensação de que, se eles podem estar “mortos”, é porque um dia estiveram “vivos” e foram, de certa forma, “assassinados”.

A memória afetiva do jornalista remonta à infância, quando passava pelo Clube de Regatas Tietê. Era inimaginável para ele conceber competições de remo ou natação naquele corpo d’água fétido e poluído, contrastando com as histórias de seu avô materno, que décadas antes havia nadado e competido ali. Essa desconexão entre o passado glorioso e o presente degradado do Tietê ilustra a perda de uma relação vital com o rio.

O Tietê: de rio histórico a símbolo de degradação e renascimento

O Tietê, um rio que corre para o interior do país, desafiando a lógica de nascer tão perto do mar, carrega uma mitologia complexa. Associado ao heroísmo bandeirante, essa narrativa, segundo Leite, é tão falsa quanto genocida, mascarando a realidade da escravização indígena. Crescer na presença de um rio “morto” é um desafio, pois ele encarna uma história desencontrada, onde a grandiosidade natural foi substituída pela degradação humana.

Contudo, a jornada de Leite revela uma esperança: a possibilidade de um rio ressuscitar. Ao reencontrar o Tietê na fazenda Anhangaí, em Araçatuba, a mais de 500 km da capital, ele se depara com um rio piscoso e vibrante. Essa experiência o leva à reflexão de Heráclito de Éfeso, que afirmava não ser possível banhar-se duas vezes no mesmo rio. A impermanência dos cursos d’água serve como uma metáfora poderosa para a vida, onde a transformação, para o bem ou para o mal, é constante. Se um rio pode transmutar-se de cloaca em um ecossistema saudável, a esperança de mudança e renovação se torna palpável em diversas esferas da existência.

Jornadas fluviais: do Paraíba ao Xingu, a diversidade de encontros

Ao longo de sua carreira e vida, Marcelo Leite teve a oportunidade de testemunhar a diversidade e a beleza de inúmeros rios, tanto no Brasil quanto no exterior. Do Paraíba em Tremembé (SP) ao majestoso São Francisco, que ele percorreu de Bom Jesus da Lapa (MG) a Juazeiro (BA), cada encontro fluvial trouxe uma nova perspectiva. Ele também se conectou com rios urbanos e históricos como o Portela no Rio de Janeiro, o Tejo em Lisboa, o Tâmisa em Londres, o Arno em Florença e o Spree em Berlim. A grandiosidade dos rios amazônicos, como o Negro e o Solimões em Manaus, e a clareza cristalina do Sucuri em Bonito (MS), completam esse panorama de experiências.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi o contato com o Xingu. Em 2009, Leite esteve na aldeia icpengue Moigu para documentar a nascente Rede de Sementes. Anos depois, em 2013, em Altamira (PA), ele testemunhou o que descreve como o “assassinato” desse caudal mítico. A reportagem multimídia “A batalha de Belo Monte” impôs a ele a dura realidade da destruição do Xingu, um rio de imensa importância para povos indígenas e para figuras como os irmãos Villas-Bôas, que dedicaram suas vidas à proteção da região. A documentação da Volta Grande do Xingu por terra, água e ar, ao lado do fotógrafo Lalo de Almeida, foi uma realização profissional comparável apenas às suas experiências na Antártida e no Ártico, onde as torrentes de gelo dos glaciares reinam.

A cumplicidade humana e o futuro dos ecossistemas fluviais

A trágica realidade é que a Volta Grande do Xingu secou, um “assassinato premeditado e consumado” em nome da hidreletricidade da Norte Energia e da mineração de ouro da Belo Sun. Essa constatação leva Marcelo Leite a uma conclusão contundente: “Os rios estão vivos, sim, até serem mortos. Somos todos cúmplices no genocídio.” Essa frase final ressoa como um alerta sobre a responsabilidade coletiva na degradação ambiental.

A destruição de ecossistemas fluviais não é um evento isolado, mas o resultado de decisões econômicas, políticas e sociais que priorizam o desenvolvimento a qualquer custo. A poluição, o desmatamento das margens, a construção de barragens e a exploração desenfreada de recursos naturais contribuem para a morte silenciosa de rios que são essenciais para a biodiversidade, o clima e a subsistência de comunidades. A reflexão de Leite nos convida a uma introspecção sobre nosso papel nessa dinâmica e a urgência de uma mudança de paradigma, reconhecendo o valor intrínseco dos rios como seres vivos e a interconexão com a própria vida humana. Para saber mais sobre o trabalho de Marcelo Leite, visite sua página de autor na Folha de S.Paulo.

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