21.jun.24/Folhapress

Custo de processos na justiça gratuita supera R$ 7.000, aponta estudo

Politica

Um estudo recente da professora Luciana Yeung, do Insper, trouxe à tona um dado que acende o debate sobre a eficiência e o acesso à justiça no Brasil: o custo médio de cada processo na chamada “justiça gratuita” ultrapassa os R$ 7.300. Essa estimativa considera não apenas as despesas diretas do Poder Judiciário, mas também os custos privados envolvidos em todas as etapas da condução de um processo judicial. A revelação coloca em xeque a percepção de que a gratuidade representa um custo nulo para o sistema e para a sociedade.

Apesar de a gratuidade ser um pilar essencial para garantir o acesso à justiça a quem não pode arcar com as despesas processuais, o levantamento sugere que o benefício não está sendo direcionado de forma prioritária aos grupos mais necessitados. A discussão ganha ainda mais relevância no cenário atual, com o Supremo Tribunal Federal (STF) analisando a validade da autodeclaração de hipossuficiência econômica como critério único para a concessão do benefício.

O Custo Oculto da Justiça Gratuita no Brasil

A pesquisa detalha que o valor de R$ 7.300 por processo na justiça gratuita é composto por uma série de fatores. Incluem-se aí os gastos com infraestrutura, pessoal, tecnologia e todos os recursos necessários para o funcionamento das varas e tribunais. Além disso, são considerados os custos indiretos que recaem sobre as partes, mesmo quando isentas de taxas judiciais, como deslocamento, honorários advocatícios (em alguns casos) e o tempo dedicado ao acompanhamento da ação. Esse montante evidencia um desafio significativo para a sustentabilidade do sistema judicial brasileiro.

A professora Luciana Yeung ressalta que, embora a gratuidade seja fundamental, é imperativo assegurar que ela beneficie efetivamente a população de baixa renda. Os dados do estudo apontam para uma disparidade preocupante: enquanto 21% dos novos processos recebem o benefício em regiões mais pobres do país, esse percentual cai para 15% nas áreas mais ricas. Essa diferença sugere uma falha na focalização do benefício, levantando questionamentos sobre os critérios de concessão e a fiscalização.

Desafios na Concessão e a Discussão no STF

Um dos pontos centrais da controvérsia é a prática comum de conceder a gratuidade de justiça com base apenas na autodeclaração de insuficiência financeira do interessado. A pesquisa do Insper critica essa abordagem, afirmando que “os dados sugerem que o benefício não está sendo direcionado prioritariamente às regiões ou grupos mais necessitados. Ao mesmo tempo, verifica-se a baixa frequência de fundamentação detalhada nas decisões que concedem o benefício”.

Essa constatação alimenta o debate em curso no STF, que avalia se a simples declaração é suficiente ou se são necessárias outras provas da condição de hipossuficiência. A decisão da Suprema Corte terá um impacto direto na forma como a justiça gratuita será concedida no futuro, buscando um equilíbrio entre a facilitação do acesso e a prevenção de abusos que oneram o sistema.

A Busca por Soluções e a Sobrecarga do Sistema

A discussão sobre os custos e a eficácia da justiça gratuita se entrelaça com outro importante debate no Judiciário: o chamado tema 1396 no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Os ministros do STJ analisarão a necessidade de tentar uma solução extrajudicial em ações de consumo antes de recorrer ao litígio formal. Essa iniciativa reflete uma crescente preocupação com a sobrecarga do sistema judicial e a busca por alternativas mais céleres e menos custosas.

O levantamento da professora Yeung corrobora essa necessidade, enfatizando a importância de estimular mecanismos alternativos de resolução de conflitos, como a mediação e a conciliação. Tais abordagens podem oferecer resultados mais rápidos e com custos significativamente menores, desafogando os tribunais e proporcionando uma resposta mais eficiente aos cidadãos.

Impacto Social e a Eficiência da Justiça

O desafio, conforme avalia a pesquisadora, reside em “equilibrar o direito de ação com a necessidade de evitar a sobrecarga de um sistema que se torna cada vez mais caro, lento e menos eficiente para todos os cidadãos”. Um sistema judicial moroso e oneroso, mesmo para aqueles que teoricamente não pagam, acaba por prejudicar a todos, impactando a segurança jurídica, o ambiente de negócios e a própria confiança da população nas instituições.

A reflexão sobre o custo da justiça gratuita e a sua distribuição é fundamental para aprimorar as políticas públicas e garantir que o direito fundamental ao acesso à justiça seja exercido de forma equitativa e eficiente. O debate atual é uma oportunidade para repensar os mecanismos de concessão e buscar soluções que promovam um sistema judicial mais ágil, justo e acessível para todos os brasileiros.

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