A goma xantana, um aditivo onipresente na indústria alimentícia moderna, está sob novo escrutínio científico. Conhecida por sua capacidade de conferir textura e estabilidade a uma vasta gama de produtos — de sorvetes e molhos a massas sem glúten e suplementos para disfagia —, a substância pode não ser tão inofensiva quanto se supunha. Uma pesquisa conduzida por cientistas brasileiros, publicada recentemente na revista Plos One, indica que o consumo contínuo desse espessante pode desencadear processos inflamatórios no intestino humano.
Mecanismos de inflamação e permeabilidade intestinal
O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), utilizou modelos experimentais para observar os efeitos do aditivo ao longo de dez semanas. Os resultados revelaram que, independentemente da dosagem, a goma xantana promove um estado inflamatório moderado no tecido intestinal. Esse processo é evidenciado pela infiltração de linfócitos, células de defesa que, quando presentes em excesso na parede do órgão, sinalizam uma resposta imunológica ativa e persistente.
Além da presença de células inflamatórias, os pesquisadores detectaram um aumento nos níveis de proteínas como a Claudina-2. Essa alteração é um marcador crítico para o que a medicina denomina “aumento da permeabilidade intestinal”. Em condições normais, o intestino atua como uma barreira seletiva, permitindo a absorção de nutrientes enquanto bloqueia a entrada de toxinas e patógenos na corrente sanguínea. Com o consumo crônico da goma, as junções entre as células intestinais podem se tornar mais frouxas, comprometendo essa proteção vital.
Antecedentes clínicos e o alerta do FDA
As preocupações com a segurança da goma xantana não são inteiramente novas. Em 2011, a agência reguladora norte-americana FDA emitiu um alerta severo após a associação do uso de espessantes à base dessa substância com casos de enterocolite necrosante em bebês prematuros. A condição, caracterizada pela morte de células intestinais, resultou em ao menos sete óbitos à época, levando à proibição total do aditivo em fórmulas para recém-nascidos prematuros nos Estados Unidos.
“Até agora, a relação entre a goma xantana e a doença nos bebês era apenas uma hipótese clínica ou uma observação empírica. O estudo realizado em ratos comprovou a causalidade”, afirma Claudia Oller, professora da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e coordenadora da pesquisa. O trabalho atual preenche uma lacuna importante, fornecendo evidências experimentais que validam as suspeitas clínicas que perduravam há mais de uma década sobre o impacto desse aditivo no organismo.
Impacto na microbiota e disbiose
Outro ponto de atenção levantado pela investigação científica é a alteração na microbiota intestinal. Embora a diversidade geral de microrganismos não tenha sofrido mudanças drásticas, o consumo prolongado do aditivo favoreceu o crescimento de bactérias do filo Elusimicrobiota. Esse grupo bacteriano é frequentemente associado a estados inflamatórios, caracterizando um quadro de disbiose — o desequilíbrio da flora intestinal que pode preceder diversas doenças crônicas.
A goma xantana é um produto biotecnológico obtido através da fermentação da bactéria Xanthomonas campestris. Embora o processo industrial seja rigorosamente controlado para purificar a substância, a natureza da molécula parece desafiar a capacidade de processamento do trato digestivo humano quando ingerida de forma recorrente. A substância, que confere viscosidade a alimentos processados, mantém essa característica mesmo após a ingestão, o que pode influenciar a dinâmica do trânsito intestinal e a interação com a mucosa.
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