30.mar.21/Folhapress

Atividade física após diagnóstico de câncer pode prolongar a vida

Saúde

A luta contra o câncer é um desafio que mobiliza ciência, medicina e, cada vez mais, a própria força do paciente. Enquanto os benefícios da atividade física na prevenção da doença são amplamente reconhecidos, um novo e robusto estudo traz uma perspectiva ainda mais encorajadora: a prática regular de exercícios após o diagnóstico pode ser um fator crucial para aumentar a sobrevida de pacientes com diversos tipos de tumor. Esta descoberta reforça a importância de integrar o movimento ao plano de tratamento e recuperação, transformando a rotina de milhares de pessoas.

Publicada em fevereiro no renomado periódico JAMA Network, a pesquisa combinou dados de seis grandes estudos de saúde de longo prazo, envolvendo mais de 17 mil sobreviventes de sete tipos distintos de câncer: bexiga, endométrio, rim, pulmão, boca, ovário e reto. O objetivo foi analisar a relação entre a quantidade de exercícios físicos praticados antes e, em média, 2,8 anos após o diagnóstico. Os resultados, ajustados para fatores como idade, sexo, tabagismo e estágio da doença, apontaram um padrão consistente: indivíduos mais ativos apresentaram menor mortalidade relacionada ao câncer.

Um Estudo Abrangente Revela Novos Horizontes

A pesquisa representa um avanço significativo no entendimento de como o estilo de vida impacta a jornada do paciente oncológico. Ao consolidar uma base de dados tão vasta e diversificada, os cientistas conseguiram identificar tendências que, até então, careciam de evidências mais concretas para alguns tipos de tumor. A oncologista clínica Ana Paula Garcia Cardoso, do Einstein Hospital Israelita, destaca a relevância desses achados para a prática médica. “Esse estudo impacta enormemente nossa prática clínica. Torna relevante demais a prática de exercício físico para isso ser deixado de lado durante uma consulta com seu oncologista”, afirma a especialista.

Um dos pontos mais notáveis do levantamento é a observação de que os benefícios da atividade física se estendem mesmo àqueles que eram sedentários antes do diagnóstico, mas que adotaram uma rotina de exercícios posteriormente. Essa mudança de hábito resultou em uma redução significativa no risco de morte, especialmente em casos de câncer de pulmão e reto. “Muitos acham que, se não começaram antes, não vale mais a pena. Mas os resultados do estudo mostram o contrário”, observa Cardoso, desmistificando a ideia de que é tarde para começar.

Atividade Física e Câncer: De Sedentário a Ativo, Sem Barreiras

Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomende ao menos 150 minutos de atividade física de intensidade moderada a intensa por semana, o estudo do JAMA Network traz uma mensagem ainda mais acessível: qualquer movimento conta. Mesmo pequenas quantidades de exercício foram associadas a um menor risco de morte por alguns tipos de câncer. “De maneira consistente, sair da inatividade física pode trazer benefícios inequívocos à saúde”, explica a Dra. Ana Paula Cardoso. Isso significa que a barreira do “mínimo obrigatório” não deve impedir ninguém de começar.

A progressão para níveis mais altos de atividade é encorajada, mas o ponto de partida é o mais importante. Para pacientes que enfrentam os desafios do tratamento, a flexibilidade e a adaptação são essenciais. A dúvida sobre o momento ideal para iniciar os exercícios — se é preciso esperar o fim do tratamento, por exemplo — é comum. A resposta da oncologista é clara: “Não é preciso esperar um momento ideal. Na verdade, esse momento dificilmente vai existir. A atividade física pode ser introduzida em qualquer fase, desde que respeitadas as condições clínicas e com orientação adequada.”

Implicações Clínicas e o Papel da Orientação Médica

Os achados da pesquisa, contudo, revelam nuances importantes. A magnitude do benefício da atividade física pode variar conforme o tipo de câncer. Enquanto em tumores como os de pulmão, endométrio, bexiga e ovário o impacto foi mais consistente, em outros, como os de cavidade oral e reto, a redução do risco de morte se mostrou mais evidente em pacientes que mantiveram níveis mais elevados de atividade física após o diagnóstico. “A magnitude do benefício varia entre os tumores, e isso deve ser interpretado com cautela. Os cânceres são biologicamente diferentes, assim como os pacientes. Mas isso não invalida o fato de que a atividade física é benéfica para a maioria, sem risco de prejuízo”, pondera a oncologista.

Essa diferenciação sublinha a importância de uma abordagem personalizada. O acompanhamento de profissionais de saúde, incluindo oncologistas e educadores físicos especializados, é fundamental para que o paciente possa iniciar e manter uma rotina de exercícios segura e eficaz. A pesquisa focou principalmente em atividades aeróbicas de intensidade moderada a vigorosa, como caminhada, bicicleta ou exercícios leves. A recomendação é começar devagar, com cerca de 15 minutos por dia, e progredir gradualmente, buscando atividades que sejam agradáveis e sustentáveis no dia a dia. “Toda atividade física é bem-vinda”, conclui Cardoso.

Exercício como Pilar na Recuperação Oncológica

A incorporação da atividade física no pós-diagnóstico transcende a mera prevenção de outras comorbidades. Ela se estabelece como um pilar fundamental na recuperação oncológica, contribuindo não apenas para a sobrevida, mas também para a qualidade de vida, a redução da fadiga relacionada ao câncer, a melhora do humor e a manutenção da massa muscular, frequentemente afetada pelos tratamentos. Em um país como o Brasil, onde o acesso a programas de reabilitação e acompanhamento multidisciplinar ainda é um desafio em muitas regiões, a conscientização sobre o poder do movimento ganha ainda mais relevância.

Este estudo reforça a mensagem de que, mesmo diante de um diagnóstico tão complexo como o câncer, há caminhos ativos para otimizar a saúde e o bem-estar. A ciência continua a desvendar as múltiplas facetas da interação entre o corpo humano e a doença, oferecendo esperança e ferramentas práticas para pacientes e profissionais. A mensagem é clara: movimentar-se é um investimento valioso na própria vida, em qualquer fase.

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