Privação de sono: os riscos à saúde e a rara exceção de quem dorme menos por genética

Privação de sono: os riscos à saúde e a rara exceção de quem dorme menos por genética

Saúde

Em um mundo cada vez mais conectado e exigente, as dificuldades para dormir se tornaram uma realidade comum para milhões de pessoas. Seja pela rotina agitada, pelo estresse ou pela constante exposição a telas, a percepção de uma noite mal dormida é frequentemente acompanhada por uma sensação de cansaço que se arrasta para o dia seguinte. Contudo, a relação entre a quantidade e a qualidade do sono e seus impactos na saúde é complexa, e nem sempre a percepção individual coincide com o real funcionamento do organismo.

Paradoxalmente, a tecnologia que nos ajuda a monitorar o sono, como os aplicativos e dispositivos vestíveis, pode, em alguns casos, intensificar a preocupação. Alertas constantes sobre o horário de dormir e avaliações negativas da qualidade do sono podem elevar os níveis de ansiedade, acelerar os batimentos cardíacos e, ironicamente, dificultar ainda mais o adormecer. Essa dinâmica levanta um questionamento crucial: estamos realmente mais conscientes sobre nosso sono ou apenas mais ansiosos com ele?

O impacto da privação de sono na saúde e no julgamento

A privação crônica de sono não é apenas um incômodo; ela acarreta sérias consequências para a saúde física e mental. Catia Reis, pesquisadora do sono da Universidade de Lisboa, destaca que o julgamento humano piora significativamente quando há déficit de sono. Um sinal claro desse acúmulo é a necessidade de dormir mais tempo nos fins de semana, mesmo que a pessoa se sinta bem durante a semana.

Em suas pesquisas, Reis investigou os níveis de sonolência em pacientes com apneia do sono e em trabalhadores de turnos. Ela identificou uma discrepância intrigante: quanto mais sonolentas as pessoas estavam, menos capazes se tornavam de avaliar com precisão o próprio nível de sonolência. Isso indica que a privação de sono afeta diretamente as funções cerebrais, comprometendo a autopercepção e a capacidade de tomar decisões adequadas.

O déficit prolongado de sono pode levar ao acúmulo de toxinas no organismo, aumentando o risco de doenças cardíacas, acidentes vasculares cerebrais, diabetes tipo 2 e obesidade. Além disso, compromete o sistema imunológico, tornando o corpo mais suscetível a infecções, e afeta a saúde mental, contribuindo para o desenvolvimento de transtornos de humor como depressão e ansiedade. A longo prazo, a privação de sono pode ser fatal, como ressalta Ying-Hui Fu, pesquisadora da Universidade da Califórnia em San Francisco, comparando a importância do sono à do ar e da água para a sobrevivência.

A vitalidade do sono para o cérebro e o corpo

Enquanto dormimos, o organismo não está em repouso total; pelo contrário, realiza uma série de funções vitais de recuperação e manutenção. O cérebro, em particular, é intensamente ativo, eliminando toxinas acumuladas durante o dia, restaurando a energia e consolidando processos essenciais para a aprendizagem e a memória. É durante o sono que as informações são processadas e armazenadas, e as conexões neurais são fortalecidas.

Ying-Hui Fu enfatiza que o sono envolve muitas partes do cérebro, e a maioria das doenças cerebrais, incluindo as neurológicas e psiquiátricas, pode estar associada a problemas de sono. A média de sono necessária para um adulto varia entre 7,5 e 8,5 horas por noite. No entanto, a sociedade moderna muitas vezes glorifica a privação de sono, com relatos de figuras públicas que se orgulham de dormir poucas horas, como se isso fosse um sinal de dedicação extrema ao trabalho. Um exemplo recente foi o da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que afirmou dormir entre zero e três horas por noite. Contudo, essa não é uma estratégia saudável a longo prazo para a vasta maioria das pessoas.

Dormidores naturais de curta duração: uma exceção genética

Apesar dos riscos generalizados da privação de sono, existem exceções notáveis. Algumas pessoas conseguem dormir menos de seis horas por noite e não apenas se sentem bem, mas também apresentam boa saúde, disposição e qualidade de vida. São os chamados “dormidores naturais de curta duração” (natural short sleepers), um grupo raro que desafia a regra da necessidade de sono.

Pesquisadores acreditam que essas pessoas possuem variações genéticas específicas que lhes permitem prosperar com menos horas de sono. Fu cita o caso de uma pessoa de 80 anos com essa característica que continuava competindo em provas de triatlo, demonstrando que essa condição não está associada aos efeitos negativos da privação de sono voluntária ou forçada. É crucial diferenciar essa condição genética de um hábito de dormir pouco, que invariavelmente trará prejuízos à saúde.

Desvendando os genes por trás do sono reduzido

A pesquisa genética tem sido fundamental para entender o fenômeno dos dormidores naturais de curta duração. Em 2009, o laboratório de Fu identificou a primeira variação genética associada a essa condição, no gene DEC2. Uma década depois, um estudo sugeriu uma ligação com o gene ADRB1. Posteriormente, outras variantes foram encontradas nos genes NPSR1, GRM1 e SIK3, entre outros, que continuam sob investigação.

Os cientistas preferem o termo “variações” genéticas em vez de “mutações”, pois o último geralmente está associado a efeitos negativos para a saúde, o que não é o caso do sono natural de curta duração. As funções desses genes são diversas: DEC2 regula os ciclos de sono e vigília; ADRB1 participa da sinalização cardíaca e neuronal; NPSR1 contribui para regular estados de alerta e ansiedade; GRM1 está ligado ao funcionamento cerebral e pode ter relação com a depressão; e SIK3 participa da regulação celular, metabólica e inflamatória.

A identificação dessas variações é um processo complexo, pois cada indivíduo possui centenas a milhares de variações exclusivas em seu genoma. A metodologia de pesquisa frequentemente se baseia no estudo de famílias que compartilham a mesma variação genética. Se vários parentes apresentam a mesma alteração e todos permanecem saudáveis dormindo apenas entre quatro e seis horas por noite, há uma forte indicação de que aquela variação está relacionada ao fenômeno. Embora o número de pessoas identificadas como “dormidoras naturais de curta duração” ainda seja pequeno, Fu acredita que o fenômeno seja mais comum do que os estudos atuais indicam. Para a maioria, no entanto, a priorização de um sono adequado continua sendo um pilar fundamental para a saúde e o bem-estar. Acesse mais informações sobre a importância do sono para a saúde.

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